• O  POVO DE DEUS

    A classe média escolarizada, as elites e a grande maioria dos intelectuais veem o crescimento do número de igrejas evangélicas nas periferias brasileiras como um grande fenômeno de manipulação das massas por pastores midiáticos e desonestos. Os fieis seriam, nesse olhar, um grupo de fanáticos que se deixam manipular e são explorados. Apenas explorados.


    O antropólogo Juliano Spyer em livro intitulado O Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam, nos ajuda a compreender um pouco melhor esse universo denso. O autor apresenta aos leitores o fato que vem sendo estudado por sociólogos e antropólogos que estudam religião: entrar para a igreja evangélica melhora as condições de vida dos brasileiros mais pobres, daí o sucesso dessas igrejas. E mais, faz parte dos argumentos centrais de Juliano que o preconceito que muitos brasileiros escolarizados expressam contra o cristianismo evangélico reflete o preconceito contra pobres que não se vitimam e buscam sua inclusão social via educação e consumo.


    Ele usa nesse contexto o termo evangélico para se referir – como fazem todos os brasileiros dos setores médios – ao protestante pobre. Aquele que é chamado de apenas de protestante pertence geralmente as camadas médias e alta e rejeita a classificação de crente ou mesmo evangélico. Ele se identifica como cristão. Eles pertencem as igrejas Luterana, Batista, Presbiteriana, Metodista, Episcopal e algumas outras.


    Mas a obra trata de um outro grupo, que ganhou grandes dimensões recentemente: os neopentecostais. Eles serão maioria do Brasil já na próxima década. A igreja Universal do Reino de Deus é um bom exemplo. Ela funde a ideia do culto exuberante, emocional e interativo e tem uma lógica de busca do sucesso material. Professam a teologia da prosperidade. O neopentecostal de uma forma geral é levado a atuar de maneira empreendedora para enfrentar as adversidades da vida. Talvez seja esse o principal fator de seu sucesso.


    A maior das igrejas evangélicas pentecostais é a Assembleia de Deus, que segundo os dados censitários apresentados tem mais de 12 milhões de seguidores, logo depois vem as várias igrejas com múltiplas denominações que somam mais de 9 milhões e as menores igrejas somadas são mais de 5 milhões. Só aí estamos falando de mais de 30 milhões de brasileiros. Fenômeno social da maior importância, até porque eles criaram espaços exclusivos de convivência nos bairros pobres. Esses espaços de solidariedade é tudo que muitos têm, onde a única presença do estado é polícia, muitas vezes assustadora.


    É um livro instigante. Mostra com toda a clareza que os intelectuais não podem desconhecer a importância e profundidade de um fenômeno que vai mudando a cara do Brasil. Tanto é assim que é base de sustentação do ultraconservador Jair Bolsonaro.


    A força política dos evangélicos, com suas bancadas nos diversos níveis do parlamento brasileiro, e suas demandas de valores morais conservadores não se esgotará nesse governo já perto do fim.

    Pelo contrário, o livro tem a grande importância de nos convidar a compreender estas redes com um olhar muito mais profundo e atento. Distante de preconceitos e mais próximo à complexa teia que se tece em torno da religião na sociedade brasileira.


    Penso que é desta forma que aqueles que se dedicam a observar e compreender o cenário político e eleitoral no Brasil podem compreender como o “Povo de Deus” foi e talvez ainda seja foram um dos pilares de sustentação da eleição de Bolsonaro, sem dúvida. Mas muito além de um personagem, veio para ficar por muito tempo na cena política.

    Templo de Salomão sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, construída no bairro do Brás, distrito do Belém, São Paulo
  • ESCRAVIDÃO II

    Laurentino Gomes, festejado autor dos best-sellers 1808, 1822 e 1889, todos escritos com um texto jornalístico de grande qualidade, de leitura leve e fácil, sem perder a densidade histórica, partiu para uma nova empreitada intelectual e editorial. Escrever em três volumes uma obra sobre a escravidão brasileira. Essa abominável instituição que foi um dos maiores – senão o maior – absurdos da história da humanidade.  Foram mais de quatro séculos de uma selvageria sem fim. Suplícios, torturas, estupros, assassinatos, tudo feito debaixo da aprovação da igreja católica, conivente com todo o processo. 

    O autor já havia publicado em 2019 o primeiro volume, que cobriu mais de 250 anos da história dessa obra perversa dos países tidos com os mais evoluídos do mundo. Tratou desde o primeiro leilão de cativos africanos em Portugal, em 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares em 1695. Este segundo livro concentra-se basicamente no século XVIII, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação de lavouras de uso intensivo de mão de obra em toda a América. Começa em 1694 e vai até a independência. Trata de forma muito interessante o cotidiano do funcionamento da sociedade colonial brasileira, onde a presença africana era sinônimo de trabalho. O corpo escravizado movimentava tudo.

    Até a Santa Inquisição protegia esse que foi um dos piores momentos da história da humanidade, não só pela perversidade, mas também por sua longa duração. Devo alertar que há momentos tão duros na leitura, que temos que parar para respirar e voltar a ler. Fico pensando, como um país tão mergulhado nessa história pode superá-la para construir-se melhor. A extrema-direita recente em nosso país está aí mesmo para mostrar as dificuldades dessa convivência com o passado. 

    De tal forma a escravidão estava enraizada em nossas instituições imaginárias que quando a corte chegou ao Brasil em 1808 estava literalmente falida e o tráfico era um negócio gigantesco. Metade dos trinta maiores comerciantes do Rio de Janeiro eram traficantes de escravos, respeitados e reverenciados. Foram os grandes doadores e apoiadores da monarquia, fartamente recompensados com títulos de nobreza e honrarias. Um dos maiores dos traficantes Elias, o Turco, deu ao príncipe regente sua própria casa construída numa Chácara em São Cristóvão. Sede do Museu Nacional que foi consumida em pavoroso incêndio em 2018.

    Creio que o maior mérito desse segundo volume de escravidão, que traça sua história desde o início da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da Corte de dom João ao Brasil, talvez seja sua construção subjetiva, além de mostrar como os escravos urbanos ganharam condições de comprar suas alforrias e criar um outro espaço na sociedade colonial. A história de Chica da Silva ilustra bem essa etapa histórica.

    Do autor dos best-sellers 1808, 1822 e 1889. Escravidão II é o segundo livro da trilogia Escravidão, de Laurentino Gomes

    Laurentino Gomes mostra as estratégias de sobrevivência entre os escravizados frente ao poder opressor dos proprietários de escravos. Mostra também as estratégias de controle por parte dos senhores que, por exemplo, dificultam a reunião de pessoas da mesma etnia, que falavam a mesma língua, tinham os mesmos deuses e compartilhavam valores. Essa separação teve duas consequências, primeiro as revoltas foram muito dificultadas por esse procedimento. Outra é que juntamos aqui povos que em África viviam a até quatro mil quilômetros de distância. Criamos nossas Áfricas.

    É dessas Áfricas brasileiras que produziram religiões, festas e celebrações próprias dessa nova situação que nasceram muito da força da nossa cultura popular de raiz africana, nesse país de forte tradicional negra. 

    Trata-se de uma grande obra. Gigantesca na produção de informação, com boas fontes, que nos ajuda a compreender a produção social desse país desigual, desumano e racista. Nos ajuda a entender porque esses temas não nos abandonam, não os superamos. De vez quando voltam como pesadelos, como esse de agora, vindos de um capitão desvairado.

  • O PREÇO DA AVENTURA

    O presidente Bolsonaro está em campanha pela reeleição desde que chegou ao poder. Na verdade, comporta-se como candidato na maior parte do tempo. É tudo cálculo político. Ele sabe que precisa manter coesa sua base eleitoral, o chamado bolsonarismo raiz, que conta com um em cada quatro brasileiros. Esse contingente não segue uma liderança política nos moldes habituais, segue de fato um líder messiânico, um mito, como eles mesmo dizem. 

    A diferença é brutal. Quem se deixava guia por Antonio Conselheiro foi com ele até a morte. Muitos bolsonaristas irão com seu líder juntos nos mais extremos atos da política. Por isso ele vai esticando a corda cada vez mais. Não vai recuar, não vai mudar de atitude e nem vai cumprir acordos, a maioria feitos apenas para ganhar tempo. É mais importante manter o fanatismo aceso até as eleições do ano que vem. 

    O tempo de Bolsonaro é o da desconstrução da confiança nos processos eleitorais. Por isso, o apoio a Roberto Jeferson, um estelionatário sem escrúpulos. Por isso receber o cantor sertanejo Sérgio Reis no palácio do governo, antes de anunciar uma greve que não haverá. Tudo para promover tumulto e agitar permanentemente sua base popular.

    Esse é o elemento central para entender o que se passa. Ele sabe que serão difíceis as eleições para ele. Tenta uma saída para continuar no poder mesmo sendo derrotado. A mesma estratégia de Trump.  Pode se servir do medo dos militares para com a candidatura Lula para obter outro apoio importante para a manobra golpista.

    Mas, ao mesmo tempo, está alimentado, através do chamado centrão, o fisiologismo da velha política brasileira, com emendas parlamentares e outros expedientes. Esse grupo se formou desde a constituinte no governo Sarney. Operou como base de Collor e garantiu a reeleição para Fernando Henrique. No mensalão do PT lá estavam eles. Agora, voltam com a força que sempre tem nos governos fracos. Como não temos partidos fortes, as bases no parlamento não são construídas como nas democracias maduras, por acordos temáticos. Os acordos passam pela distribuição de cargos, de verbas para as bases aliadas e de emendas parlamentares.

    Tudo isso é muito velho. Mas o novo e a articulação da velha política dos coronéis com o populismo de direita é uma invenção bolsonarista. Junta o que já era ruim, ao que é ainda pior. Mas, o Brasil não é só isso. Há uma outra vibração, a dos que estão apostando na continuidade democrática e na continuidade da sociedade. Os que estão em busca da via democrática são a maioria, segundo as pesquisas de opinião.  Falta a esse grupo uma liderança forte e uma ideia força. Mas existem representações na política e na sociedade civil. 

    Finalmente, registro que existe hoje um grande embate em marcha na sociedade brasileira entre esses dois projetos políticos. Parte do embate está registrado na imprensa mais democrática e parte dele ainda está nos jogos de bastidores. Não sabemos quem sairá vencedor. Sabemos apenas que teremos eleições muito difíceis. Talvez as mais difíceis da história política brasileira. Mas se vencerem as forças do populismo atrasado, a sociedade toda vai pagar muito caro por essa aventura fora de hora e fora de moda. 

  • Collor e Bolsonaro: a aventura dos “outsiders” em Brasília

    Acabo de fazer uma leitura muito interessante e que nos enriquece com elementos do passado recente, ao mesmo tempo que nos ajuda a entender a crise que estamos atravessando. Trata-se do livro O Estado a que Chegamos: falência de um modelo de organização que impede o desenvolvimento nacional, recentemente lançado. O autor é João Santana, um destacado membro da equipe de Fernando Collor na presidência da república.

    Ele foi inicialmente Secretário de Administração Federal – onde cuidou na reforma do estado levada a efeito por aquele governo – e depois foi o poderoso Ministro da Infraestrutura, que se ocupava das centenas de estatais – muitas das quais mero empreguismo e abrigo de corrupção – herança do período militar. Antes, havia trabalhado no governo Franco Montoro em São Paulo e na equipe do Ministro Funaro, no governo Sarney. Tinha 32 anos quando chegou ao governo Collor.

    Santana analisa de forma lúcida a grande transformação que Collor pretendeu fazer na gestão pública brasileira, que começou reduzindo o número de ministérios de 23 para 12. O autor participou de vários projetos que tentavam reduzir o empreguismo, os gastos supérfluos do governo nacional e iniciou nosso processo de venda das estatais, pela Usiminas. Atacou de frente a reserva de mercado que faziam, por exemplo, a indústria automobilística que vendia carros caros e defasados. Na área de informática essa reserva nos deixava longe da era digital que se iniciava, erámos obrigados a comprar um computador totalmente defasado fabricado por uma estatal.

    O projeto poderia ter feito o Brasil avançar muito em várias áreas. Poderia ter entregue um governo mais limpo, mais ágil, menos gastador e capaz de prestar melhores serviços aos cidadãos. Mas, o presidente renunciou antes do fim de seu terceiro ano de governo, pilotando uma crise política e ética. Santana nos ajuda a entender porque o governo fracassou. Na verdade Collor não tinha base congressual, não tinha um partido forte e nem fez as alianças necessárias a enfrentar o grande número de interesses que havia. Além disso, deixou-se enredar pelos elementos da política provinciana de Alagoas e do seu operador de interesses financeiros, o PC Farias. 

    Resultado, foi sendo encantonado pelo sistema político, em especial segundo Santana, pelo antigo PFL comandado a época por Jorge Bornhausen. Trouxe para dentro do governo e da base congressual o que havia, segundo ele, de mais atrasado na política brasileira. Demitiu os que acreditavam no projeto inicial e passou a ter suporte em pessoas que agiam só por cálculos políticos. Pessoas que dominavam o jogo do congresso e eram muito mais fortes do que o presidente.

    Congresso Nacional, em Brasília: tanto Collor quanto Bolsonaro ficaram reféns do Centrão. Crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado

    Agindo assim, abraçou o passado e o trouxe para dentro de casa. A despeito de ter tido incialmente um projeto aprovado nas urnas, de ter montado uma equipe com capacidade de conduzir aquele projeto, perdeu. E perdeu porque não soube fazer política, não soube operar com o capital eleitoral que tinha e se deixou levar pelo atraso, que o traiu.

    Collor tinha um projeto econômico e de estado muito mais denso do que o de Bolsonaro. Iniciou um trabalho com muito mais profundidade do que o capitão, que tem um olhar de superficial e conseguiu articular o ódio que ainda temos ao sistema político tradicional.  Entretanto, pilota um governo sem entregas, com excessiva ênfase ideológica e sem um projeto de nação.

    Mas, por mais diferentes que tenham sido os processos de construção e desconstrução dos dois governos, eles têm um ponto em comum: o fato de serem tocados por outsiders da política, por políticos de pequeno porte antes de chegar à presidência. Acabaram por se transformar em presa fácil do atraso. O mesmo “centrão”  que liquidou um, na visão de Santana, liquidará o outro. Por asfixia.  

  • Bley e Jones: a ponte para a modernidade.

    O Espírito Santo na era Vargas

    A Era de Ouro dos coronéis no Brasil, terminou com a chamada Revolução de 1930. Os dois interventores que governaram o Espírito Santo na Era Vargas, entre 1930 e 1945: João Punaro Bley e Jones dos Santos Neves, foram, na verdade, nossa ponte entre o velho Espírito Santo das elites do café e um espírito novo que nascia em toda a nação, mas que eles personificaram em nosso estado. Foram eles nossa ponte para a modernidade.

    O imaginário central da república dos coronéis era o da exclusão política das massas. Melhor da incapacidade política das massas. Seu papel no grande jogo da política era subalterno. Para ficarmos em um exemplo, vejamos como nossos maiores estadistas da primeira república tratavam as obras públicas que fizeram. Eram todas voltadas para os mais ricos. Gilton Ferreira fala em sua tese de doutorado que os códigos que disciplinavam a vida em Vitória, proibiam que os pobres visitassem os jardins públicos como o Parque Moscoso a grande obra desse período. Eram as classes perigosas no jargão oficial que usavam.

    Mas, o Movimento de 1930 trouxe novidades na gestão política do Espírito Santo. Em primeiro lugar por ter saneado as finanças públicas do governo estadual, fortemente abaladas pela crise mundial iniciada em 1929. Investiu fortemente em saúde e educação.  Assim, ele construiu leprosários, sanatórios, asilos, hospitais, casas de saúde, penitenciárias, escolas, internatos. São da gestão de o Hospital das Funcionários Públicos, o maior do estado na época. Implantou ainda a Rádio Espírito Santo.

    Por fim vale também registrar que ele implantou as Faculdades de Odontologia, de Farmácia e de Direito. Colocou a funcionar também a Escola Técnica Vitória e a Agro técnica de Santa Tereza. Ou seja, moldou um conjunto de obras com uma abrangência bem mais ampla do que as cidades republicanas construídas pelos velhos coronéis

    Foi Bley quem colocou em funcionamento a hidrelétrica de Rio Bonito e construiu a Usina Suíça, além de ter construído o caís de minério do Porto de Vitória. Ele também construiu o Quartel a Polícia Militar em Maruípe. Cito essas obras, além do Estádio Governador Bley em Jucutuquara, para dar uma ideia rápida das ações importantes do seu governo.  

    Bley deu um passo muito importante na construção do Espírito Santo moderno. Passo esse que foi seguido por Jones dos Santos Neves. Bley chegou ao Espírito Santo com as tropas ditas revolucionárias em 1930 e ficou no governo até 1943, quando foi substituído por Jones, que deu prosseguimento a sua obra. Podemos dizer com toda certeza que o Espírito Santo de hoje. Nas palavras do brilhante historiador João Eurípedes Franklin Leal, Jones fez a travessia entre a velha e a nova república. Seu projeto de modernização ultrapassou seus dois governos – já que foi governador eleito em 1950.

    Quando falamos de Jones dos Santos Neve, devemos levar em conta que a sua obra iniciada ainda nos anos 1940 seria sentida em prédios escolares, postos de saúde, estradas, fóruns, cadeias, serviços de água entre muitos outros. Aprofundou e atualizou o projeto varguista em muitos sentidos. 

    Mas, ele sobretudo instituiu o planejamento como um instrumento de poder para impor um sentido que ele dava ao seu governo e ao desenvolvimento do Espírito Santo. Tanto no Plano de Obras e Equipamentos na interventoria, quanto o Plano de Valorização Econômica do Espírito Santo, no governo democrático. Nasceu do chamado projeto jonista as bases da industrialização em nosso estado. O que não é pouco. Assim, em plena ditadura Vargas dois grandes dirigentes fizeram avançar muito o nosso estado. 

  • CARIÊ LINDENBERG

    O Espírito Santo tem em sua história recente – a chamada história do tempo presente –  alguns personagens que fizeram a diferença na construção de um território cultural moderno e empreendedor. Três desses construtores da modernidade partiram nesse ano de 2021. Jônice Tristão, Lorentzen, criador da Aracruz Celulose e Cariê Lindenberg.

    Pois hoje quero fazer um breve histórico da contribuição de Cariê à construção da nossa modernidade. Fazer uma espécie de síntese de seu amor pela liberdade e a forma com que ele contribuiu para que ela fosse forte entre nós, seja como músico, como escritor ou empresário. Mas, sobretudo quero tratar de seu papel fundamental como empresário da área de comunicação, embora as outras faces do cristal estejam presentes em toda a sua obra, a mais importante do ponto de vista social foi sem dúvida a construção da Rede Gazeta de Comunicação.

    Comecemos do começo. Cariê nasceu no Rio de Janeiro, mas veio para Vitória ainda bebê, e foi aqui que cresceu, casou, criou seus filhos e prosperou como homem de comunicação. Filho do político mais poderoso do Espírito Santo no pós-guerra, Carlos Lindenberg, que foi, entre outras coisas, por duas vezes governador do estado (1947/1951 e 1959/1962) nunca quis ingressar no mundo da política. Ajudou o pai em campanhas eleitorais e ocupou postos de estrita confiança do governador em seu gabinete, mas jamais desejou dar prosseguimento familiar à saga política herdada desde Jerônimo Monteiro. Foi sempre auxiliar discreto. O poder não lhe interessava nesse plano. Ele nunca quis ser rei.

    Mas foi, de fato, um capixaba notável. Sua trajetória da maturidade foi iniciada como advogado formado na PUC do Rio em 1958. Essa profissão nunca chegou de fato a exercer. Seus tempos de juventude no Rio foram consumidos em outras frentes. Foi nessa época que ele acompanhou o surgimento da Bossa Nova, convivendo com figuras de proa daquele movimento como Miéle, Roberto Menescal e Tom Jobim.

    Costumava dizer – no tom bem-humorado com que levou a vida e mesmo com certa dose de exagero –  que não gostava de música, gostava de Bossa Nova. Dessa sua paixão pela música surgiu Devaneios, composição sua que por muitos anos abriu e fechou a programação da TV que fundou, a TV Gazeta, transmissora capixaba da Rede Globo. Reuniu frequentemente os amigos em tardes musicais em sua casa na Ilha do Frade, onde tinha um palco dentro da sala. Ainda no campo das artes, na literatura, teve uma vocação tardia.

    Passou as duas últimas décadas de sua vida escrevendo crônicas, memórias bem-humoradas e reflexões sobre a sociedade. Desde “Eu e a Sorte”, o primeiro de 2002, até “Vou Te Contar” de 2019, com destaque para “Pingos e Respingos” onde tratou das graves consequências das fortes chuvas que caíram sobre o Espírito Santo em 1979.

    No seu último ano de vida começou a organizar algumas reflexões políticas sobre os impasses do Brasil atual. Andava sem paciência com o que via, não concordava com a forma de governar que estamos vendo no país, do ódio que se espalhava. Alinhavava sugestões. Acho que contava comigo para escrever o prefácio, e me mostrou a primeira versão. Esse livro ficou inacabado. Problemas de saúde o afastaram da escrita. A morte o levou antes do fim do trabalho.

    Mas, voltemos a trajetória de vida do nosso personagem, ao começo de tudo. Como costuma acontecer com aqueles que tem alma de artista, mas espírito empreendedor virou publicitário, ou melhor dono de agência. Foi um dos fundadores da primeira agência capixaba, e Eldorado Publicidade, em 1965. A agência foi criada para ajudar a instituir um mercado publicitário mais profissional. Ele sentia essa ausência de profissionalização por sua participação na Plano Engenharia.  Essa dupla militância entre a artes e os empreendimentos o acompanharia toda a vida.  E teve tudo a ver com a sua militância no jornalismo. Sem fortes anunciantes não existe imprensa livre e independente.

    Em 1963 passou a trabalhar no jornal que pertencia ao seu pai como diretor comercial.  A partir daí, começou a contribuição que seria a mais definitiva na vida política, econômica e social capixaba. Criar uma imprensa moderna e livre de amarras partidárias.

    Antes da gestão de Cariê era o jornal do grupo político do PSD, partido conduzido por seu pai de forma ainda coronelística. Uma espécie de panfleto, como aliás eram todos os veículos naquela época. “A partir de 1967, eu fiz em A Gazeta um paciente, longo e exaustivo esforço para desvinculá-la de um grupo político, o PSD”, ele escreveu em “O fato e sua versão”, publicado em Eu e a Sorte.

    A inflexão em termos dos maiores jornais foi dada pelo espírito ético e vanguardista do Cariê. Isso sem grandes alardes, como era de seu feitio. Doce e suave como ele próprio as mudanças foram sendo instituídas. Se por um lado os governos militares criaram obstáculos pela instituição da censura, por outro lado quebrou as fronteiras partidárias ao criar o bipartidarismo e abrigar na Arena de Carlos Lindenberg antigos desafetos políticos. Muitos foram incorporados ao jornal.

    A Gazeta mais profissional incorporou intelectuais importantes, criou uma nova compreensão da vida cultural. O passo definitivo, para ele mesmo admite em seus escritos, para a consolidação de uma moderna rede de comunicação foi a implantação de um canal de televisão afiliada da Rede Globo, em 1976. Foi uma longa batalha travada pela concessão oficial. Mas, a nossa sorte grande estava na forma como ele passou a gerenciar o canal. Ao contrário das elites regionais como as do Maranhão, Bahia ou Alagoas, por exemplo, ele deu direção totalmente profissional a concessão.

    Rede Gazeta, em Vitória, afiliada da Rede Globo com uma história singular.

    O Espírito Santo renovou sua vida política de forma extraordinária com o fim do ciclo dos militares. Nenhum dos governadores eleitos a partir da volta das eleições diretas em 1982 saiu das elites nascidas nas fazendas de café. Igual juízo de pode fazer para os prefeitos da capital e das principais cidades de nosso estado. De Gerson Camata em 1982 até os dias atuais. De Hermes Laranja em 1985 a eleição de 2020, nenhum dirigente pertenceu mais às elites rurais e nem as fracções da burguesia local.

    Naquele momento decisivo ele incorporou a face dos nossos construtores da modernidade. Foi profissional. Não fez o jogo do varejo da política. Foi grande. Agiu com grandeza de espírito. Nunca cedeu ao jogo de poder regional que marcou a vida de outras grandes redes regionais Brasil a fora.

    Isso não foi obra do acaso. Nossa base econômica se renovo muito, mas a presença forte da Rede Gazeta de Comunicações sempre se fez sentir. Quando o germe da corrupção ameaçou se abater sobre nós, lá estava o Cariê ao lado dos que queriam o bem-estar dos capixabas, fundando o Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação, uma ONG empresarial moderna e atuante.

    Assim era o Cariê em suas posições políticas e empresarias. Um liberal, um artista, um democrata. Por tudo isso podemos colocá-lo entre os personagens que construíram o Espírito Santo moderno.

  • MARIA ORTIZ: uma heroína capixaba

                                                                                                                                                                                                       João Gualberto

    Maria Ortiz nasceu e viveu em Vitória – durante a chamada União Ibérica, entre 1580 e 1640 – quando os espanhóis tiveram seus domínios estendidos para o Brasil. Os pais dela nasceram na Espanha e para cá vieram em 1601, com as facilidades que foram criadas para esse tipo de intercâmbio. Ele nasceu dois anos depois.

    Primeiro, vamos entender um pouco aquele momento histórico. Ele estava marcado pelo fato do comando de toda a colônia, derivado da mesma União Ibérica, haver desarticulado todo o sistema de comercialização do açúcar brasileiro, que até então era apoiado em uma articulação entre os mercadores portugueses – que tinham monopólio da venda de toda a produção brasileira – e os holandeses. Os últimos faziam de fato as vendas e a distribuição para o mercado europeu. 

    Portanto, é preciso ficar claro que os holandeses eram sócios da economia açucareira do Brasil, já que investiam capital no transporte e em etapas da própria produção, mas os espanhóis estavam em guerra aberta contra a Holanda. 

    Porém, com a União Ibérica os espanhóis acabaram cortando as relações econômicas entre portugueses e holandeses, desarticulando esse arranjo que abrigava tantos interesses. A reação dos holandeses foi a criação da Companhia das Índias Ocidentais, que era de fato uma grande empresa comercial para a época. Sem acesso aos mecanismos comerciais que estavam estabelecidos, resolveram estabelecer uma colônia no Brasil. 

    A primeira tentativa se deu na Bahia em 1624. Logo depois em 1625 foi a vez do Espirito Santo. Os holandeses atacaram Vitória com oito naus, que ficaram ancoradas na baía de Vitória. O governo da capitania organizou a defesa. O acesso ao centro da vila se dava por uma ladeira íngreme e estreita onde hoje existe a Escadaria Maria Ortiz. No pé da ladeira havia um pequeno cais. Maria Ortiz, uma jovem de 21 anos, morava num sobrado no alto dessa ladeira. 

    A jovem capixaba utilizou sua grande capacidade de liderança para arregimentar pessoas do povo que não participavam das forças oficiais, e organizar um reforço da defesa. Assim, quando os holandeses começaram a subir a ladeira foram surpreendidos por essa força popular que estava alojada nos sobrados. Foram despejadas pedras, paus, água fervendo, brasas, dejetos. Enfim, tudo o que estava ao alcance do improvisado grupo de defesa. 

    Evidentemente que tais esforços não foram suficientes para a expulsão dos invasores, como diz a lenda, mas deu o tempo necessário para que as forças oficiais fossem se posicionando de forma a permitir a defesa de fato. Enquanto se travava a luta, a mesma Maria Ortiz exercia um notável papel de liderança, incentivando a todos ao combate. Tudo isso está contado por Nara Saleto no livro “Donatários, Colonos, Índios e Jesuítas”.

    De fato, os holandeses foram rechaçados, mas tornaram a atacar a vila e as fazendas que haviam na mesma área. Foram derrotados com a participação da armada de Salvador Correa de Sá, que chegava ao Espírito Santo naquele momento. Mas, não foram poucos os prejuízos que causaram. 

    Quanto a nossa jovem heroína, pouco se sabe dela depois disso, a não ser que morreu aos 43 anos aqui mesmo na ilha que ajudou heroicamente a defender. Por ser pessoa simples e sem títulos de nobreza, poucos registros temos dela. Aliás, pouco falamos de nossos heroísmos populares.

    Quanto aos holandeses, foram expulsos da Bahia logo depois do ataque ao Espírito Santo. Mas dois anos depois em 1628 saquearam uma grande frota que transportava prata vinda do Peru para a Espanha.  Com os recursos obtidos com esse saque preparam uma poderosa armada que conquistou Pernambuco, que tinha a melhor produção de açúcar naquele ano de 1630. Lá ficaram por 24 anos, e deixaram um grande legado para a história.

  • COLONIZAÇÃO CAPIXABA

    Em maio de 1535 os portugueses chegaram ao Espírito Santo.  Na nossa história oficial comemoramos no dia 23 de maio, com o pomposo – e algo fora de moda – nome de Colonização do Solo Espírito-Santense. Na verdade, o início de nosso processo de construção de uma nova sociedade. Bem perversa.

    Vamos relembrar essa história. Os portugueses dominavam a arte da navegação. Havia toda uma tecnologia que lhes permitia a aventura de atravessar o Mar Tenebroso, como chamavam o Oceano Atlântico. O comércio de Florença e de outras cidades italianas com o mundo árabe estava prejudicado desde a metade do século XV pela tomada de Constantinopla pelos Turcos. Muitos capitais italianos ligados ao comércio no mediterrâneo buscaram novas alternativas. Havia interesses comerciais e havia interesses religiosos. 

    A vinda dos portugueses para o Brasil não deixou de ser uma espécie de continuidade das cruzadas. Continha o combate aos infiéis, que no nosso caso eram os indígenas. Os nativos da terra podiam ser cristianizados, aí seriam salvos, ou podiam ser escravizados, o que ocorreu a um grande número. Mas, a maioria foi mesmo exterminada.

    Como registrou Adilson Vilaça, não há colonização sem dor. “Morte e sangue vertido, morte e sangue perdido, morte e sangue pervertido – morte sob o ataque do aço, morte por enforcamento, morte após tortura e estupro. Porque não há colonização sem dor. Sem muita dor”.

    O que os capitais italianos queriam eram lucros polpudos. O que os navegadores portugueses queriam era expandir os seus limites. O que queria a nobreza portuguesa era ouro, prata, pedras preciosas. A aventura ultramarina era estruturada a partir da fé e dos interesses comerciais. Pau Brasil, cana de açúcar eram, por assim dizer, riquezas intermediárias. O objetivo do enriquecimento rápido, da ética da aventura, para ficar numa expressão do grande historiador Sérgio Buarque Holanda em Raízes do Brasil, era ouro.

    Voltemos ao Espírito Santo. O primeiro de nossos donatários, aquele que ganhou o direito de expressão de tudo o que houvesse com as regras que ele mesmo criasse, foi Vasco Fernandes Coutinho e ganhou por seus triunfos nas guerras lusas na África e na Ásia. Era um homem com proezas de guerra. Com eles vieram os tais degredados, 58 bandidos comuns, desorelhados. Era hábito que esses condenados fossem desorelhados, orelhas extraídas como parte da pena. A justiça portuguesa andava com mão pesada para condenar muitos pobres ao degredo, por crimes como bigamia ou moeda falsa, e assim favorecer a colonização. 

    Mas, entre os tais degredados, havia dois nobres particularmente perversos: Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco. Dom Jorge de Menezes havia sido governador de uma ilha nas Índias, e tantas foram as suas loucuras e maldades que foi mandado a ferros para Portugal, de onde saiu para vir para o nosso Espírito Santo, para ajudar Vasco Fernandes Coutinho a comandar a tal colonização. 

    Dom Simão Castelo Branco também havia chegado a ferros a Portugal, vindo de Marrocos, de onde fora destituído de suas funções de governo, por corrupção. Também foi mandado para o Espírito Santo juntos com o primeiro donatário.  Foram tão maus que acabaram sendo assassinados pelos índios, em escaramuças sanguinárias. Dom Jorge de Menezes começou um cruel processo de escravização dos índios. Mas eles eram os valentes Goitacazes, talvez os mais temidos guerreiros de todo o litoral, e responderam de forma dura com uma guerra que acabou com a morte dos dois. Foi, digamos assim, um encontro de selvagerias. 

    É preciso rever certas festas cívicas, entre ela a data da Colonização do Solo Espírito-Santense. O evento merece ser lembrado como marco de dor e maldade, como a imposição de uma cultura toda voltada para a ambição desmedida. Como bem lembrou Adilson. Não há colonização sem dor. Sem muita dor.

  • O NOVO NA POLÍTICA BRASILEIRA

    O sistema político brasileiro foi construído, desde de sempre, de costas para a opinião pública, ou, como dizia Pedro II, da opinião nacional. A independência e a nossa primeira constituição, o sistema parlamentarista de pé quebrado instituído por ela, o centralismo do Império, tudo foi feito longe da escuta popular.

    Quando o Império esgotou seu papel, quando a insatisfação se instalou, abriu espaço para um tipo de republicanismo onde as eleições eram meros detalhes, fraudadas escancaradamente. Para dar um exemplo, na eleição de Jerônimo Monteiro em 1908, ele teve cerca de 18.000 votos, e o seu adversário, o Barão de Monjardim teve 13 e o Dr. José Belo de Amorim, 10. Eram vitórias na mão grande, para usar uma expressão atual. 

    Também a Proclamação da República foi um Golpe Militar, sem o envolvimento da militância republicana. O povo a tudo assistiu bestializado registrou o jornalista Aristides Lobo no dia 15 de novembro, no Rio de Janeiro.

    A charge de Miguel Paiva: Constraste com a épica imagem “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em 1886 (Portanto, 64 anos após a separação do Brasil de Portugal)

    No século XX, duas ditaduras atropelaram nosso sistema político: a de Vargas iniciada nos anos 1930 e a dos militares iniciada em 1964.  A retomada da democracia se deu através das elites tradicionais. Maior prova disso é que José Sarney foi o nosso primeiro presidente depois da ditadura, em 1985. Mas, sempre ouve uma tensão entre o novo e velho em nosso sistema político. Desde sempre. O velho vem se impondo, às vezes imbricado com o novo. Em vários momentos a sociedade optou pelo novo. O arcaico não se impôs como um bloco monolítico.

    Há uma grande confusão no eleitor brasileiro, que julga que o novo é uma questão geracional. Votar em um jovem não significa votar no novo na política, votar em uma pessoa vinculada a religião não significa dar um voto ético. Mas embalado por uma certa ingenuidade política, os brasileiros têm agido assim.

    Fiz uma recapitulação histórica muito breve. Vamos, entretanto, nos fixar nos momentos mais recentes. Em especial nas eleições disruptivas de 2018. No Espírito Santo os experientes senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço foram substituídos por dois novatos, sem passado político. Por todas as evidências foi o alinhamento simbólico com a campanha de Jair Bolsonaro que os levou a Vitória.

    A espetacularização do combate a corrupção feita pela operação Lava Jato talvez tenha sido o estopim dessa disruptura. O cansaço com a velha política, a existência de elites partidárias totalmente corrompidas deu o motivo para o voto no novo, no desconhecido, de certa maneira na aventura. Governadores de dois estados vizinhos nossos foram eleitos assim: Rio de Janeiro e Minas Gerais. Um desejo de mudar, que não é novo, foi potencializado pelas evidências de corrupção exibidas na televisão e no restante da mídia. O PT foi reduzido politicamente de forma drástica. 

    Disso todos sabemos. A nossa questão é quanto desse desejo de disruptura ainda está presente em nosso imaginário político. Como ele se apresentara agora? Tivesse sido o governo Jair Bolsonaro um sucesso até agora, nós teríamos a resposta fácil. Mas, não é o caso. Sobretudo diante da pandemia do novo corona vírus, ele teve uma condução negacionista. Fosse o governo um fracasso também seria fácil falar. Mas, o governo tem sua popularidade, o presidente tem sua bolha fiel. Estamos no meio. Isso significa que poderemos ter diferentes apropriações do fenômeno do novo.  

    As primeiras pesquisas de opinião realizadas nas maiores cidades, como é o caso de Vitória, mostram o surgimento de políticos com experiência. Então temos um elemento ainda não definida o para o próximo pleito. A experiência terá que papel? A busca do novo terá que peso?

    Evidentemente que a velha política terá mais uma vez um papel negativo. O que parece é que aqueles que tiverem uma mancha com a corrupção serão punidos. Mas não acredito que tenhamos uma repetição da disruptura que levou o capitão ao poder. Não naquela intensidade. O fenômeno tende a se repetir de forma mais matizada, menos abrupta.

    Cabe ao campo democrático discutir esse novo. Seu conteúdo, sua característica. Senão vamos repetir as frustações de votar em um candidato que é jovem, mas que não porta nenhuma novidade seja na formulação, seja na ação política.