• O POPULAR E O ERUDITO

    A sociedade brasileira, como sabemos todos muito bem, é muito elitista e excludente. Do ponto de vista histórico, vários elementos nos ajudam a compreender o processo que produziu a cena social na qual nos movimentamos hoje, repleta desse elitismo que atravessou os séculos. Um desses elementos me parece particularmente relevante: a instituição da escravidão. Nossos antepassados europeus não apenas atravessaram o oceano para trazer aprisionados, no porão de sujas embarcações, os africanos escravizados, mas também submeteram ao trabalho forçado milhões de indígenas. Eram os escravos da terra.

    No mundo dividido entre as pessoas livres e as escravizadas havia um imenso abismo social. Abismo esse que acabou por instituir um imaginário social onde tudo que emergisse dos setores sociais ligados ao trabalho forçado era obrigatoriamente de segunda classe. Foi assim com a religião, com os papéis sociais, com os conceitos de beleza, com a forma de se vestir, com tudo enfim. 

    Não causa, portanto, nenhuma estranheza quando observamos o descaso histórico sempre dado a cultura popular entre nós. Ela expressa – nesse olhar elitista – uma arte menor, uma forma dos grupos sociais marginalizados econômica e socialmente manifestarem seu olhar sobre o mundo. Algumas dessas manifestações foram reprimidas com vigor pela polícia. Eu mesmo vi quando criança no interior do Espírito Santo, atitudes violentas das autoridades contra os terreiros de macumba, como eram chamados, contra a religiosidade de matriz africana e que sempre contiveram elementos do outro grupo de escravizados, os indígenas.

    Somente nos nossos dias, os governos começaram a construir de forma mais sólida políticas públicas que levam em conta a força da contribuição dos setores populares. 

    Apenas agora a parte da sociedade brasileira que tem a chave que abre os cofres públicos e que abre as portas do que conta e do que não conta começa a perceber a força dessas tantas manifestações sobretudo na música, na dança, na pintura, na arte em geral. Na literatura contam-se nos dedos das mãos as Conceição Alvarenga ou Carolina de Jesus que romperam a barreira social e produziram obras com grande repercussão, inclusive no mercado literário. 

    Mas, o ponto que seja talvez o mais importante hoje é como as instituições que cuidam do dia a dia da cultura devem lidar com essa duplicidade. Acredito que construindo as pontes que reduzam esse abismo. Um bom exemplo talvez seja o da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, que sob a liderança artística e humana do Maestro Helder Tretzger, realizou um conjunto de concertos envolvendo ora bandas lindas de congo, ora o maravilhoso Ticumbi de São Benedito de Mestre Terto de Conceição da Barra (Veja vídeo aqui – Seculo Diário). Tenho orgulho de ter contribuído com esse processo enquanto ocupei o cargo de secretário de estado a cultura em nosso estado. 

    Todas as instituições da sociedade civil que operam na área da cultura e que vieram de uma visão mais tradicional, sobretudo devido a um olhar positivista do campo, devem se aproximar cada vez mais desse novo patamar de integração e abandonar de uma vez por todas a ideia de que o erudito se opõe ao popular. Na verdade, as duas dimensões se integram e se completam.

  • A REINVENÇÃO DA POLÍTICA EM FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acaba de publicar um novo trabalho. Como em tudo que vem publicando nos últimos anos, ele trata de questão da atualidade com muita pertinência. Do alto de seus 86 anos, continua lúcido e atual. Tem sempre reflexões importante e observações profundas.

    No livro Crise e Reinvenção da Política no Brasil, ele trata da crise brasileira dos dias de hoje – ou melhor das crises brasileiras – e do contexto no qual se darão as eleições de 2018.

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    Não é e nem pretende ser um tratado sociológico profundo. Antes pelo contrário. O livro é acima de tudo o olhar atento e profundo de um hábil político que chegou a presidência e que tem bagagem para fazer uma leitura densa do que se passa no Brasil de hoje.

    Pela primeira vez, o autor trata de questões relativas aos também ex-presidentes Lula e Dilma Roussef, dando-lhes responsabilidades nos processos políticos que sufocam o Brasil. Para se ter ideia do que isso significa, ele diz textualmente na página 237:

    Infelizmente, Lula despiu o macacão e se deixou engolfar pelo que havia de mais tradicional em nossa política: o clientelismo e o corporativismo, tendo a corrupção como cimento. Não é desse tipo de liderança que precisamos para construir um grande país.

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    Lula, Dilma, o então ministro Edson Lobão e o macacão, alusão do autor a história do petista e sua passagem pelo planalto como período histórico.

    Mas, se Fernando Henrique não se exime de atribuir a Lula os deslizes que ele crê que foram cometidos pelo PT sob sua liderança, também não é ele o objeto principal de suas análises. Na verdade, ele trata sobretudo o caráter do Brasil contemporâneo em oposição ao Brasil moderno, no campo da política. As mudanças que se operaram sobretudo a partir dos anos 1990 e como eles levaram o velho e o novo a coabitar de forma diferente em nossos principais traços culturais. E de como elas vem obrigando os líderes a mudar sua forma de se comunicar com a população portando novas mensagens. Mas a oposição entre o moderno e o arcaico não é mais a oposição singela entre a grande indústria e a favela. A favela não é mais apenas o lugar da exclusão como no passado. Está inserida na sociedade com expressão cultural própria, a despeito da desigualdade brutais que porta.

    Para ele não há Terra Prometida a nos esperar no final do túnel da crise atual. Nem será um Moisés providencial a nos guiar na travessia. Esta terá de ser feita pela política, e a política é um empreendimento coletivo das pessoas, grupos e forças sociais que se juntam em torno de uma visão comum de um futuro desejável. Para ele necessitamos de um patriotismo democrático, aberto ao mundo, mas movido por um sentimento profundo de pertencimento ao Brasil e de compromisso com o seu povo.

    Fernando Henrique acredita que o desafio das lideranças renovadoras consiste em criar mais do que uma narrativa, propostas que desenhem rumos para a nação. Porque ou bem seremos capazes de reinventar o rumo da política, ou cedo ou tarde a indignação popular explodirá nas ruas, não podendo se prever contra ou a favor do que. E o desafio das mesmas lideranças é o de rearticular o sistema político com a sociedade e isso passa pelo reconhecimento do papel desempenhado por novos atores e novas dinâmicas sociais e culturais, e não apenas por organizações e instituições como no passado.

    Mas, para o autor a globalização está na raiz da crise de legitimidade que afeta a democracia representativa por duas razões distintas, mas convergentes: o livre fluxo dos bens econômicos e financeiros, mas também a livre circulação de informações, ideais e valores. Economia, comércio, comunicação e cultura se tornaram globais, enquanto a democracia representativa permaneceu essencialmente nacional.

    O fenômeno reduziu, na perspectiva do livro, o poder dos Estados nacionais ao mesmo tempo que fortaleceu o indivíduo como cidadão.  Assim, por trás de protestos que sacudiram nos últimos anos países tão diversos como Brasil, Chile, Tunísia, Turquia, Egito, Irã, África do Sul e Israel, está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por modernas tecnologias de informação. Essa é uma das marcas das sociedades contemporâneas, o cidadão comum e pouco politizado quer participar, demanda por interlocução, não se representa mais nas instituições e lideranças tradicionais. Não se importa com os partidos políticos.

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    Os movimentos de junho de 2013, no Brasil, uma da série de acontecimentos entre os observados por Fernando Henrique no livro.

    Mas, as reflexões do ex-presidente ganham densidade quando trata da postura dos governos. Para ele o dinamismo de uma sociedade aberta e conectada como a do Brasil contemporâneo reclama uma postura mais eficiente e menos arrogante do Estado. A ordem não se impõe de cima para baixo, vinda de um centro de comando e controle. O que importa não é uma fluida vontade de todos, e sim a participação de todos os interessados na deliberação. Ou seja, no mundo de hoje liderança política não se ganha de uma vez por todas, precisa ser constantemente cultivada e renovada. Um líder sozinho não agrega. Na verdade, o que mobiliza para valer são as causas, os movimentos identitários, as reinvindicações de liberdade lançadas por grupos e movimentos da sociedade.

    Estamos fadados como sociedade a entrar nas eleições de 2018 à deriva. A crise instalada nos campos da economia, da política e dos valores éticos fulminou os restos de legitimidade do velho sistema político. E o novo não nasceu ainda. Faremos um voo no escuro, tentando encontrar a saída no processo. Difícil, mas é a tarefa que nos cabe como sociedade.

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    O livro do ex-presidente: leitura importante do que se passa no Brasil de hoje.

     

  • Macron e a jabuticaba brasileira

     

    Ainda existem muitas incertezas quanto às eleições que se aproximam. A extrema fragmentação partidária, o desprestigio da política e dos políticos, a crise dos governos do PT, a fragilidade de imagem do governo de Temer: tudo isso forma um ambiente tóxico, onde a maioria dos eleitores não sabe exatamente o que fazer.

    Nesse contexto, surgiram algumas candidaturas de outsiders como as de Luciano Huck Joaquim Barbosa, que já anunciaram que não vão de fato enfrentar a disputa. Atores descolados de histórias partidárias e relacionamentos no campo da política.Na minha opinião, um risco para todos nós. A inépcia de Dilma Roussef tanto quanto a de Fernando Collor em lidar com o parlamento custou seus mandatos. Não podemos ter mais um presidente sem experiência política. O Brasil não suporta isso. Temos que avançar.

     

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    O presidente francês ao lado de Donald Trump, em recente jantar no EUA. Reuters

    Alguns defensores dessas candidaturas gostam de citar o exemplo das eleições presidenciais francesas de 2017, onde um ator descolado dos grandes partidos tradicionais construiu uma vitória inesperada: Emmanuel Macron. Aliás, os analistas brasileiros têm dado peso excessivo ao papel do marketing político naquelas eleições. Neste momento, somos visitados pelos marqueteiros da França com promessa de construir fenômeno parecido entre nós. Nessa vertente, seria fundamental reproduzir algumas estratégias exitosas com Macron. O exemplo do atual presidente francês aplicado ao Brasil é frágil e leva mais a equívocos do que a acertos.

     

    Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que o papel da mídia e sobretudo da propaganda eleitoral dita gratuita na televisão no Brasil é único na sociedade ocidental. Nenhum outro país articula uma televisão de excelente nível tecnológico e uma população com baixa escolaridade e nenhuma participação política de forma tão forte. A televisão foi a base da construção de nossos mitos políticos recentes. É claro que ela vem perdendo espaço para novas mídias, e a juventude sobretudo tende a se informar politicamente pelas redes sociais. É no celular que vai se travando cada vez mais os embates eleitorais. Mas o modelo mental está construído a partir da nossa trajetória.

    A última eleição que levou Dilma Roussef ao poder mostra bem isso. Um extenso conjunto de mentiras em uma campanha bilionária foi capaz de eleger uma candidata vazia. Esse é um modelo nosso. É a nossa jabuticaba. Não é o que costuma se passar nas eleições europeias de uma forma geral, e não foi o que se passou seguramente nas últimas eleições francesas.

     

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    Propaganda eleitoral de Dilma na TV em 2014: ataques e compromissos descolados da realidade são a tônica das eleições no Brasil.

    Para começar, Macron responde ao desejo da sociedade francesa em muitos pontos. É o retrato daquilo que a população procurava naquele momento. Jovem, havia sido diretor de um banco importante, ministro de estado e com boa experiência política. Apesar de ter somente 39 anos, por sua inteligência privilegiada e pelos cargos que ocupou era um homem tarimbado, capaz de dirigir um país, de ter uma visão de futuro da sua sociedade e do mundo. Jovem, mas experiente em gestão, em governo e em política.

     

    Mas, quero chamar a atenção em especial para um outro ponto: sua sólida cultura intelectual, reconhecida mesmo pelos seus adversários. Entre os grandes pensadores que marcaram a formação do presidente está o filosofo Paul Ricoeur, do qual Macron foi mesmo assistente editorial em 1999, tendo contribuído para a construção de uma de suas maiores obras la Mémoire, l’histoire, l’oubli. Na verdade, ele seguiu os cursos de história da filosofia de Ricoeur na Universidade de Nanterre, sendo considerado um leitor voraz e disciplinado.

     

    Não é pouco ter sido assistente do grande filosofo, afinal ele é considerado um dos grandes pensadores franceses da segunda metade do século XX. Além de ter sido discípulo de Paul Ricoeur, ele escreveu um trabalho na sua formação intelectual analisando a obra de Maquiavel, uma tese, um mémoire como chama a academia francesa. Este trabalho nunca foi tornado público, assim não se tem uma ideia clara de seu valor acadêmico, mas uma formação desse tipo certamente o ajudou na construção de sua carreira política. Aliás, ajudou a que os franceses vissem nele um intelectual, sendo este um elemento fundamental na sua trajetória vitoriosa, legitimando seu projeto ambicioso de mudanças na sociedade francesa.

    Além dessa bagagem de muito valor simbólico na França de hoje, na ação política de Macron é muito fácil perceber uma filosofia econômica que tem suporte na dimensão da inovação e nos investimentos. Sua base nesse caso foi Schumpeter, o extraordinário pensador austríaco ao qual ele está intelectualmente vinculado. No livro escrito pelo futuro presidente francês em 2016 Révolution foi fortemente apoiado no pensamento schumpeteriano. Ou seja, sólida formação política e sólida formação econômica. Um autor de livros, um estudioso da história e da filosofia.

    No Brasil pode ser que tal formação não seja tão importante quanto é na França. A dimensão intelectual de Macron é o fundamento principal de sua respeitabilidade. Não que suas estratégias eleitorais tenham pouco valor, não que a forma como venceu a eleição seja banal. Isso a imprensa tem dito muito. O que quero é chamar a atenção para uma outra dimensão: a intelectual, sem a qual o atual presidente francês não fica em pé. Por isso a comparação com aventureiros no Brasil não faz qualquer sentido. Macron usou o marketing político para projetar suas qualidades. Não o comparemos ao vazio brasileiro.

     

  • INDÍGENAS NO ESPÍRITO SANTO

    Texto parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros (A formação Afro Capixaba) e indígenas. 

    É de leitura indispensável para os que querem compreender melhor a construção histórica da identidade capixaba, o trabalho Espírito Santo Indígena: Conquista, trabalho, territorialidade e autogoverno dos índios, 1798-1860, de autoria da professora e pesquisadora Vânia Maria Losada Moreira. Isto porque a autora introduz várias dimensões novas nos estudos sobre a questão indígena em nosso estado, enriquecendo sobremaneira o seu entendimento. O trabalho mostra uma realidade conhecida certamente por muito poucos, e socializa entre os que desejam estudar o nosso estado informações e análises da maior importância.

    Fundamental é quando ele mostra que o Espírito Santo oitocentista foi uma região do Império bastante indígena, até porque eles atuavam no cotidiano de sua vida social e política, contribuindo para moldar e desenvolver a vida local, junto com os brancos, pardos e escravos. Ela mostra através da análise da correspondência oficial da época, a evolução dos dois principais assuntos tratados entre os presidentes da província e as autoridades da vila indígena: trabalho e terra. Era enorme a importância destes elementos em nossa história, até porque era costume na província do Espírito Santo tomar-se conta dos índios desde meninos, mesmo que pertencessem a alguma instituição do tipo orfanato, comprometendo-se a criá-los e vigiá-los até uma certa idade como empregados.

    O livro tem grande importância porque reúne cinco estudos sobre  a presença dos índios na história do Espírito Santo. Todas as questões levantadas e problematizadas situam-se no horizonte de um mesmo período histórico, entre o fim do Diretório dos Índios, em 1798, e a início da segunda metade dos oitocentos, período no qual passamos da condição colonial para a nacional. No período rico em mudanças ocorridas na sociedade como um todo, vemos que elas impactaram a vida dos índios e sua relação com a própria sociedade.

    Assinala Maria Regina Celestino de Almeida no prefácio da obra que boa parte das análises fundamentam-se no cruzamento de informações obtidas em muitas fontes, nos mais diversos documentos, principalmente aqueles sobre a Vila de Nova Almeida, a mais populosa e longeva antiga aldeia de índios no Espírito Santo. Os dados trabalhados pela autora evidenciam a importância do trabalho indígena entre nós e a presença significativa deles no exercício de cargos nas câmaras municipais e Nova Almeida e Benevente, outra antiga aldeia de índios. Aliás é sobre a questão do trabalho dos indígenas entre nós que a pesquisa de Vânia Losada tem um de seus pontos altos, esclarecendo questões fundamentais para a compreensão não apenas de nossa história, mas também da construção da identidade capixaba.

    No começo do oitocentos, Nova Almeida era uma vila mestiça, segundo o que lemos no trabalho, do ponto de vista cultura, agregando pessoas, valores e práticas dos campos ameríndio e afro-luso-brasileiro. O trabalho inicia-se com a análise da carta régia de 13 de maio de 1808, que deflagrou a guerra ofensiva contra os índios botocudos do Rio Doce tanto da capitania das Minas Gerais quanto na do Espírito Santo. Nela foi permitido o cativeiro indígena por dez anos ou enquanto durasse a fereza ou antropofagia entre eles. Em outra carta régia datada de 02 de dezembro do mesmo ano, os territórios conquistados foram qualificados de devolutos, com os quais se colonizaria o vale graças à distribuição deles como sesmarias entre novos colonos.  A autora interpreta essa norma como um arcaísmo já que reabilitou o velho princípio da guerra justa e do cativeiro indígena, mas chama a atenção que, na verdade, trata-se da reconstrução do império português no Novo Mundo com a chegada da família real.  A presença de índios considerados hostis e refratários ao controle da sociedade regional em expansão foi durante todo o século XIX um dos problemas centrais da chamada segurança pública em todo o norte da província, que incluía São Mateus e a região do vale do Rio Doce.

    As leis pombalinas existentes até então eram menos rigorosas. O cativeiro tinha sido abolido em 06 de junho de 1755 graças à decretação da liberdade absoluta dos índios, que se transforam em vassalos do rei. Deveriam ser integrados nos corpos de ordenança e estavam sujeitos ao recrutamento para prestarem serviço nas milícias. Ficaram equiparados aos demais vassalos luso-brasileiros, embora fossem vassalos especiais, principalmente aqueles que viviam nas matas “sem lei” e “sem fé”. Desse ponto de vista, a guerra e a conquista dos territórios indígenas do Espírito Santo e de Minas Gerais fazem parte do movimento de reorganização do abastecimento comercial da corte implantada no Rio de Janeiro e também da integração econômica do Centro-Sul. Os índios ocupavam em Nova Almeida os principais cargos e lugares da governança da vila, no chamado sistema de autogoverno.

    Chama a autora a atenção para o fato de que tanto em Linhares como nos minúsculos povoados, quarteis e destacamentos existentes na bacia do Rio Doce, parte considerável dos soldados eram composta dos chamados índios civilizados. Conceito que se aplicava em nossa capitania ao grupamento assentado nas antigas missões jesuíticas da região e que a partir das leis pombalinas passaram a compor a população das vilas e lugares que surgiram nos antigos aldeamentos. Interessante que se eles não viviam mais de acordo ás regras e valores de seus grupos de origem, também não podiam ser confundidos com os escravos de origem africana nem com a população de origem europeia.

     

    É contudo na articulação entre o trabalho dos indígenas e dos negros escravizados que ganha o trabalho força especial. Ele sustenta a hipótese de que a proliferação de quilombos no Espírito Santo, especialmente no norte da província durante a primeira metade do século XIX, esteve intimamente ligada ao que ele chama de política de segurança pública.  Ou seja, a aliança entre índios e senhores no combate a escravos fugidos, quanto de escravos armados e seus senhores contra os índios no sertão estavam no coração da vida social na capitania.

    Importante informação é a de que houve a construção, mesmo que transitoriamente, de uma espécie de república na região de Guarapari. Segundo a autora, os escravos de duas fazendas da região passaram a desfrutar de uma vida comunitária regular para os padrões da vida local. O que ficou conhecido como a república negra de Guarapari não era propriamente bem vista pelas autoridades, mas eles a toleravam  devido tanto à incapacidade de reprimi-los, mas sobretudo porque o inimigo maior não eram os escravos que se recusavam a trabalhar. Os chamados botocudos que viviam nos sertões em guerra permanente com a população afro-luso-indígena eram os que enfraqueciam ou subvertiam o sistema vigente. Mas havia também alianças entre senhores e grupos de índios aliados com a finalidade de combater os escravos evadidos do cativeiro, já que a formação de quilombos parecia atingir praticamente todas as localidades do Espírito Santo.  Chama a atenção a autora que nos anos 1840, a formação de quilombos tornou-se endêmica na província, com notícias de sua existência em cada quadrante do território.

    Sem ir mais longe, até porque os elementos aqui reunidos neste pequeno texto estão muito vem expostos e analisados no livro, é obrigatório afirmar que é muito mais complexa do que se imagina com simplismo a construção da sociedade capixaba, da sua identidade e do papel relativo de cada etnia neste contexto. Quando estudamos a chegada dos imigrantes europeus na segunda metade do século XIX, por exemplo, temos que levar em conta que toda esta malha já estava construída entre nós e que ela seria a base para a construção societária que tivemos na sequência.

     

    Foto de capa: Walter Garbe, Índios Botocudos – Cachoeiro de Sta. Leopoldina, 13-7-1909

  • Jerônimo Monteiro

    Artigo publicado no Jornal A Gazeta 

     

    A primeira república no Espírito Santo deixou um saldo de progresso. Foi capaz de vencer o que nossos estudiosos do passado chamavam de marasmo.  É no contexto da modernização republicana – esta por sua vez imersa no imaginário do coronelismo – que temos que entender uma personalidade política da envergadura de um Jerônimo Monteiro.  

    Advogado, formado em São Paulo, teve educação esmerada e leu com perfeição as questões políticas de seu tempo.  Era um homem de ação. E política é ação. Liderou, entre outros, o processo de construção de uma outra Vitória. Entre suas obras estão a criação da prefeitura da capital e do Serviço de Melhoramentos de Vitória, órgão do governo estadual. Através deles mudou a face da cidade. Modernidades como a luz elétrica, o esgotamento sanitário, os bondes elétricos, os novos cemitérios, a água encanada e tantos outros foram obras de seu governo em Vitória. Um grande modernizador, sem dúvida.

    O conjunto arquitetônico de Vitória, tímido até então, foi enriquecido com edificações como a transformação de antigo colégio jesuíta e da Igreja de São Thiago no moderno Palácio Anchieta, de inspiração arquitetônica eclética, como os que estavam em voga a partir do exemplo parisiense, a cidade que inspirava o mundo na época. A nova sede do Congresso Legislativo, localizada em frente ao Palácio Anchieta, tinha o mesmo estilo sofisticado.  As importantes obras no porto de Vitória que ele deu andamento ou a criação de um polo industrial em Cachoeiro de Itapemirim, sua terra natal, são mostras de sua visão de futuro. De seu desejo de mudar uma página da história capixaba. Por isso deixou um legado que transformou seu nome em lenda.

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    O então Presidente Jerônimo Monteiro, no Salão de Honra do Palácio. Imagem: arquivo público

    Maria Stella Novaes, é a autora do importante livro que lançaremos, era sua sobrinha. Viveu em Vitória como importante intelectual de sua época. Estudiosa, deixou vasta obra no campo da biologia, da botânica, da educação, do folclore e da história.

     

    O trabalho que escreveu sobre a vida e a obra de Jerônimo Monteiro é um trabalho cuidadoso e registra com rigor quem foi este grande administrador capixaba. Traz o que há de melhor e mais importante para a compreensão do gigante administrativo que foi o biografado. É, enfim, Jerônimo Monteiro: sua vida e sua obra, é um grande livro. Uma obra de leitura obrigatória a todos os capixabas, a todos aqueles que amam o nosso estado e aos que se dedicam a estuda-lo.

     

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    Cerimônia de lançamento do livro Jerônimo Monteiro

     

     

  • A CONSTRUÇÃO AFRO-CAPIXABA

    Este texto, escrito com prefácio da obra Negros no Espírito Santo, faz parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade capixaba: negros (A construção afro-capixaba), europeus e indígenas. 

     

    João Gualberto

    Entre as etnias que construíram o povo capixaba, tanto do ponto de vista físico como cultural, uma das  menos estudadas é a negra.  Tudo aquilo que diz respeito à sua presença entre nós costuma ser relegado a um incrível segundo plano. Pelo menos é muito menor o reconhecimento social do que a contribuição efetivamente dada pelos africanos ao processo social-histórico capixaba e também brasileiro em todos os termos, inclusive o cultural.

    A parcela de responsabilidade dada ao capixabismo – para usar um termos hoje abandonado – dos que para aqui chegaram durante o período colonial escravizados pelas elites luso-brasileiras, e submetidos a condições sub-humanas de vida, também é obviamente menor que toda a contribuição real na construção do nosso imaginário social.

    Foram eles tratados como párias em uma sociedade que se construía sob a marca da desigualdade e do preconceito social. Parte importante desta carga de preconceito foi dirigida justamente aos que foram cruelmente trazidos da África para o trabalho obrigatório. Daí sua quase invisibilidade mesmo no campo das contribuições intelectuais e nas explicações sobre a nossa vida social. Dai a pequena quantidade de obras dedicadas ao seu estudo. Aliás, o mesmo quadro se repete com relação aos nossos indígenas, também pouco conhecidos e pouco estudados.

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    Em maior número tem sido os trabalhos dedicados a presença real e simbólica daqueles que aqui chegaram como imigrantes vindos de terras europeias, sobretudo os italianos e os germânicos. Não é sem razão esta diferenciação de esforços intelectuais.

    A condição de escravos os tornou indivíduos sem cidadania. Deles tudo foi roubado: valores, família, prazer. A condição de escravos lhes retirou toda a possibilidade de construir autonomias e subjetividades independentes. Tudo era feito para os tornarem inferiores aos brancos para que pudessem ser usados quase que como animais voltados exclusivamente às suas tarefas produtivas e à reprodução desta odiosa força de trabalho. O olhar que as elites tinham sobre eles era a de seres desprovidos de essência. De humanidade mesmo. Os castigos impostos, a comercialização dos seus corpos, seu trabalho e sua alma acabaram por transformá-los em um povo muito discriminado entre nós. A crueldade real no tratamento cotidiano dado aos escravizados no mundo que o lusitano criou no Brasil ainda permanece viva entre nós. Transformou-se historicamente em uma quase invisibilidade da forte herança negra. Se não totalmente invisível esta herança cultural, ao menos massificado de forma nem sempre positiva.

    O reconhecimento histórico da força moral dos negros passa despercebida na sociedade brasileira atual. O heroísmo com que o povo africano enfrentou os trabalhos forçados, a tortura, a desconstrução da vida familiar, a negação de sua história e de sua cultura não está devidamente marcada no imaginário social brasileiro. Faz parecer banal a submissão de centenas de milhares de africanos e de negras e negros já nascidos no Brasil. É um dos sintomas mais graves da doença social que nos assola, que faz do Brasil uma sociedade não apenas desigual, mas profundamente despreocupada com a construção da igualdade.

    Essa mesma discriminação que acompanha os negros no Brasil certamente acompanhou o seu legado cultural. Quando pensamos mais especificamente em terras capixabas, vemos claramente a distância entre as suas heranças culturais e a importância social que a sociedade como um todo dá a elas. Nem todos os que aqui nasceram e que aqui vivem conseguem perceber a força da cultura negra, a força de suas heranças no nosso universo cultural nos dias de hoje. E não apenas em celebrações – estas sim mais conhecidas – mas na força de um caráter que os fez sobreviver e sobreviver suas culturas em um meio muito inóspito. Que fez chegar até nós inúmeras manifestações culturais, sobretudo através de festas e celebrações.

    É justamente neste distanciamento entre a contribuição real e seu reconhecimento social, que vai trabalhar, na minha visão,  a obra do Professor Cleber Maciel – cuja segunda edição foi organizada por Osvaldo Martins de Oliveira – editada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fez Cleber Maciel um levantamento minucioso do tema desde as origens dos negros capixabas até sua herança cultural, passando por lutas e discriminação.

    Este trabalho de folego é agora complementado por uma coletânea de textos organizada por Osvaldo Martins de Oliveira e com contribuição de outros importantes intelectuais capixabas. Não se trata portanto de uma simples reedição. Trata-se antes de um olhar sobre a obra inicial 20 anos depois, incorporando outras questões tão relevantes quanto aquelas iniciais.

    Como registra a apresentação feita por Leonor Araújo e por Osvaldo Oliveira, teve Cleber Maciel uma maneira específica do fazer intelectual, que é aquela empreendida de dentro e que propõe fazer uma história dos africanos e seus descendentes  no Espírito Santo. Nela o próprio autor militante e intelectual negro estava implicado. Estava de fato em busca de referências simbólicas de sua própria identidade, segundo estes mesmos pesquisadores.

    Nos novos textos agora trazidos aos leitores, temos reflexões densas sobre as várias contribuições dadas ao patrimônio cultural brasileiro e capixaba pelos africanos que aqui chegaram e pelos seus descendentes. São pesquisadores que se consideram seguidores de Cleber Maciel e que levam adiante as pesquisas sobre os agrupamentos negros e suas práticas no Espírito Santo. Foram eles produziram um pósfácio – 20 anos depois da primeira edição –  atualizando e explorando em profundidade temas citados ou apenas mencionados pelo Professor Cleber.  

    E não são poucos os temas explorados por este grupo de excelentes pesquisadores afetiva e intelectualmente vinculados aos temas tratados na primeira edição . São exemplos dos temas trazidos agora o Jongo, o Ticumbi, Os Congos e o Candomblé. Apenas alguns deles. Outros pontos importantes como quilombos ou mesmo política de cotas também são agora trazidos ao leitor. Ou seja, temos um panorama muito bem construído das questões que dizem respeito à presença simbólica africana em terras capixabas.

    A partir destes elementos os leitores poderão fazer também suas reflexões importantes, afinal quando um autor ou um grupo deles  lança ao mundo seus estudos, o que ele deseja de fato é permitir que um público mais amplo discuta as ideias  e possa a partir disto construir um novo olhar sobre determinado objeto com mais profundidade. Um autor pode mudar uma percepção e fazer avançar a compreensão de mundo que temos dele. Temos certeza de que este livro permite isto. Por esta razão sua aparição neste momento muito enriquece as percepções sobre a construção do que poderíamos chamar de identidade capixaba.

     

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    O livro do professor Cleber Maciel, reflexões importantes sobre as contribuições dadas ao patrimônio cultural brasileiro e capixaba pelos africanos que aqui chegaram.
  • IMIGRAÇÃO GERMÂNICA E IDENTIDADE CAPIXABA

    Este texto, escrito com prefácio da obra de Helmar Rölke, faz parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros e indígenas. 

    João Gualberto

    Existem livros que são travessias. Quando se termina a sua leitura, a nossa compreensão dos fenômenos da vida social ali tratados mudou. Eles fazem uma ruptura entre o antes e o depois. São os textos definitivos. Eles tem a capacidade de mudar o nosso entendimento do assunto e também de nos incitar a continuar as leituras para complementar nossas informações.

    Foi o que aconteceu comigo depois da leitura da extraordinária obra: Raízes da imigração alemã (História e Cultura Alemã no Estado do Espírito Santo). O autor traça uma magnífica trajetória da imigração alemã em nosso estado. Um trabalho intelectual de grande fôlego e de enorme estatura em seu campo de conhecimento. Segundo nos disse pessoalmente o autor, foram gastos 40 anos de pesquisas. O leitor não duvida deste dispêndio de tempo, tão pormenorizadas são as informações e tão criteriosas são as análises

    Na  primeira parte do livro, denominada de A situação política e Social na Alemanha, por exemplo, foi traçada uma descrição tão profunda do que se passou no século XIX naquela região que temos a clara noção de fazer uma leitura definitiva sobre o assunto. Para entender o século no qual aprofunda sua leitura, ele vai às raízes da construção da Prússia, da sua passagem para o novo império alemão, à sua transformação em república. Chega mesmo a tratar da ditadura nazista no século XX.  O trabalho se aprofunda em cada uma das etapas históricas da Alemanha, de tal forma que ao longo da leitura vai se compreendendo com clareza a montagem de uma arquitetura nacional complexa, como de resto são as de todas as nações europeias modernas que se bateram por séculos em disputas de fronteiras, de línguas e de culturas.

    Chama a atenção na primeira parte do livro, o momento em que o poder da Prússia teve a hegemonia militar e econômica na Alemanha, submetendo todas as províncias. De uma delas  partiu o maior grupo de imigrantes alemães vindos para o Espírito Santo: a Pomerânia.  Ou seja, um fato político na organização das nações europeias no fim do império napoleônico impactou a vinda de imigrantes para a América. Destes fatos esclarecedores o livro está cheio.

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    O mapa da Alemanha, que passou por importantes transformações, no período de 1870 até 1914: em azul o reinado “Prússia”; em vermelho, a Pomerânia.

    Neste universo prussiano o autor constrói uma espécie de narrativa do cotidiano daquele povo. Ai o texto ganha um grande momento, talvez um de seus melhores. É extraordinária a forma com que este cotidiano, em um exercício  antropológico da maior qualidade, ganha força explicativa para os fenômenos objetos de estudos na obra. Para se ter uma ideia do que era esse dia a dia , ele conta que na Pomerânia, os feudos eram constituídos de uma vasta extensão rural, geralmente dividida em duas partes. Uma do senhor, do suserano, cultivada para ele pelos servos, os vassalos. A outra parte dividida em estreitas faixas para os servos poderem cultivar algo para si. Só podiam trabalhar dois dias da semana em suas faixas de terra. Nos outros trabalham para o senhor feudal. Desta lógica econômica resultam populações miseráveis, já que a produtividade era muito baixa.  É essa massa que buscaria posteriormente se afastar de suas pátrias de origem em busca de outras terras. Sua produção agrícola não permitia sequer o sustento correto de suas famílias. Isto tudo agravado por invernos inclementes. Superar a miséria moveu essas massas campesinas.

    Continuando sua precisão narrativa, nos diz o autor que os servos recebiam cedo sua primeira refeição à base de farinha de trigo, acompanhada de pão integral. Por volta das 10 horas recebiam um pedaço de pão, untado com banha de porco, o Schumutlbrot, e um trago de aguardente. O pão também podia vir acompanhado de uma bebida quente feita a partir de uma mistura de centeio e chicória torrados. Por volta das 13 horas, era-lhes servida uma refeição como almoço. Nesta havia geralmente ervilha, nabo amarelo, repolho e batata, cozida em água e sal. As vezes havia soro de leite. Carne vez ou outra, mas havia muito toucinho. A noite batata de novo. Nem sempre se usavam pratos ou talheres, a batata era espalhada sobre a mesa. Uma porção de arenque às vezes era espalhada da mesma forma. Cada um descascava sua batata e cortava seu peixe com canivetes.

    Para completar esse quadro de extremas dificuldades para uma sobrevivência digna que tinham os servos pomeranos do império prussiano, nos acrescenta o autor que para supervisionar o trabalho no latifúndio, eram contratados inspetores e capatazes. O inspetor fazia o elo entre o capataz e o latifúndio. O capataz era o executor das ordens que vinham de cima, a ele era permitido espancar empregados. Até o século XIX, existia o direito do açoitamento, e todos o utilizavam. Os nobres açoitavam seus servos, o marido podia bater na esposa e filhos, o artesão batia no aprendiz, o professor nos alunos. Só não apanhavam aqueles que estavam na escala mais alta da sociedade.

    Ou seja, o minucioso trabalho de Helmar Rölke – que cito apenas uma fracção diminuta, mas os que o lerem poderão se informar de todo o conjunto – nos faz entender a razão pela qual quando as condições europeias permitiram grande número de germânicos, entre eles os habitantes da distante província da Pomerânia, partiram de suas terras. Os primeiros movimentos foram dentro da própria Europa – assim como aconteceu com os que viviam no norte da Itália que também vieram para o Brasil depois – só mais tarde é que optaram por viagens mais longes, pela travessia temerária do Atlântico.

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    Detalhe da capa do livro  de Helmar Reinhard Rölke. Leitura fundamental para a compreensão de elementos que integram a formação da identidade dos capixabas de origem alemã e do Espírito Santo.

    As condições da vivência europeia eram terríveis. Estes pobres camponeses nada tinham a esperar dos recantos onde viviam. Pelo relato parece que lhes faltava sobretudo esperança. A presença tecnológica das locomotivas movidas a vapor – o avanço tecnológico está na raiz das condições que permitiram a imigração em massa – produziu os deslocamentos dentro do próprio continente. A mudança alimentava a expectativa de melhores dias. Depois a mesma onda tecnológica também produziu embarcações mais potentes para atravessar os mares. Assim a busca de melhores dias de vida permitiu a vinda de centenas de milhares de europeus para as terras do novo mundo.

    O Espírito Santo, por suas condições específicas pode receber parte significativa destes imigrantes. Éramos na metade do século XIX um grande vazio populacional e de atividades econômicas, como muito bem está descrito em nossa historiografia e no próprio trabalho que analiso. A solução das colônias foi o que deu materialidade à vinda deste imenso contingente de deserdados Os camponeses europeus vieram para o Espírito Santo para construírem aqui seu paraíso campesino. Foi a imigração camponesa que construiu a sociedade capixaba de hoje.

    Temos aqui a primeira grande contribuição do livro na compreensão de nossa identidade: seu caráter absolutamente camponês. Por outras razões que não nos cabe analisar aqui, continuamos camponeses de forma tardia até pelo menos a metade do século XX. Mas, isto é uma outra história.

    Voltemos às raízes da imigração alemã. Lembra o autor que se calcula que tenham entrado no Brasil a partir de 1859 cerca de 30.000 pomeranos. Deste número cerca de 15% estabeleceram-se no Espírito Santo.

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    Foto: Ervin Kerckhoff

    Os alemães, camponeses pobres, optaram por vir para o Brasil em busca de novos horizontes. No caso específico, do Espírito Santo. Em busca de um pedaço de terra para cultivar, já que o império brasileiro tinha uma política oficial de colônias de terras que eram entregues aos imigrantes para o cultivo. Trata-se portanto de uma imigração de pessoas do campo para continuar sua saga no campo. Tudo o que buscavam era um pedaço de terra e liberdade para cultivá-la. Fugiam do regime bárbaro a que estavam submetidos e imaginavam poder melhorar suas vidas cultivando sua terra. Estavam dispostos a continuar no regime de super trabalho a que estavam submetidos. Mas tinham  a esperança do progresso. Por isso enfrentavam viagens horrorosas onde muitas perdiam mesmo a vida, enfrentavam um clima totalmente diverso, mas buscavam seu pedaço de chão na distante América e no caso em estudo neste pedacinho da América chamado Espírito Santo.  As dificuldades iniciais não foram simples, a ganância dos agentes de imigração, a desonestidade dos burocratas brasileiros e a precariedade da estrutura na chegada eram exemplos. O governo não cumpria o prometido. As colônias demoravam a ser demarcadas.

    Nos primeiros tempos a improvisação era total. Mas havia a terra, mas havia a liberdade de sonhar.

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    Fazenda pomerana: forte ligação com a ascensão do café. Foto: Ervin Kerckhoff

    Aqui o autor chama a atenção para um elemento definitivo no processo: a promessa do café. De tudo o que podiam cultivar somente um produto podia chegar ao mercado e produzir renda monetária, proporcionar acumulação e o progresso das famílias que tanto buscavam. É inegável que a expansão do café foi a grande responsável pela ocupação do território capixaba, tirando a província da letargia em que se encontrava. Para a expansão do café tornava-se fundamental trabalhadores dispostos a enfrentar o desbravamento do interior da província. Ninguém melhor do que os europeus para fazê-lo. Eles estavam dispostos a todo tipo de sacrifício para serem donos de um pedaço de terra e conheciam as condições severas de produzir em terreno montanhoso e inóspito. Fugiam de um mundo que além das grandes dificuldades não portava o futuro e tinha uma desigualdade de corte ainda feudal que era brutal.

    Deste encontro nasce uma vertente importante de compreensão de nossa formação capixaba. Da presença germânica, da importância pomerana neste contexto e da cultura do café. Cultura compreendida na extensão de seu termo. O café como produto e a imigração como portadora da mão de obra estão na base da cultura do café no Espírito Santo. Evidentemente que o café foi produzido com o trabalho escravo em grandes propriedades no sul do estado. Este fato tem enorme relevância e é um dos elementos que também formam nossa identidade regional. Mas o olhar sobre a presença campesina voltada para o café fazem uma enorme diferença em nosso estado em relação às demais unidades federativas brasileiras. Marca nossa identidade.

    Todos os traços culturais invadem essa cena. A religiosidade predominantemente luterana com a forte presença dos pastores vinculados à vida comunitária. A dificuldade ao lidar com a nova língua, a distância do mundo e dos valores lusitanos ou que os tornou isolados, tudo isto é marca identitária. Ou seja, lendo o livro do pastor luterano e pesquisador minucioso que é Helmar Rolke, entendemos um pouco melhor o que nos faz capixabas. O que nos faz diferentes. O que torna a diversidade em nosso estado algo enigmático e encantador.

    Voltando à ideia de que o livro é uma travessia que conduziu nosso breve texto e concluindo, rendemos nossa homenagem à força e ao vigor das análises aqui empreendidas. Dignas mesmo de um grande livro. Consagração de um grande autor.

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    Raízes da Imigração Alemã: trabalho definitivo na elucidação da vida de milhares de imigrantes e seus descedentes  no Espírito Santo.
  • NEGROS, EUROPEUS E INDÍGENAS.

    Texto de apresentação dos três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros e indígena

    Um assunto sempre polêmico é discutir os processos de identidade coletiva de uma sociedade determinada, qualquer que seja ela. No Brasil as discussões sobre identidade regional são sempre mescladas com uma certa competição interna entre as regiões e seus estilos de vida. Não quero contribuir para essa polêmica, e não me arriscarei a tentar traçar um perfil da identidade capixaba, até porque não tenho elementos para tal tarefa no momento.

    Meu objetivo é muito mais modesto. Quero apenas trazer para a reflexão dos leitores, alguns elementos que construíram a vida social no Espírito Santo como a vivemos hoje, sobretudo a partir da contribuição dos vários grupos étnicos que aqui chegaram no nosso processo social-histórico. O texto que abre a série de artigos foi prefácio do livro Raízes da Imigração Alemã, de Helmar Rölke. Trabalho de profunda relevância na compreensão dos imigrantes, que junto aos italianos, foram os principais na povoação do Estado.

    Os outros dois também serviram de fato como prefácio a obras publicadas na coleção Canãa do Arquivo Público do Espírito Santo, vinculado a Secretaria de Estado da Cultura, do qual sou titular há pouco mais de três anos. Juntos eles refletem elementos importantes da nossa formação.

    Alias, quero mesmo é refletir sobre a contribuição das diferentes etnias e suas culturas, que vem compondo essa espécie de mosaico que nos faz capixabas. Que nos faz diferentes de outras regiões. Os indígenas, – os povos originários – os negros que aqui chegaram na condição de escravizados e os europeus, se amalgamaram de uma forma bem própria. Mesmo que mantendo hierarquizações sociais perversas, fundiram-se em sucessivas uniões.

    Quanto aos europeus, a presença deles era majoritariamente do colonizador português nos primeiros três séculos de exploração. Foi somente no século XIX que recebemos forte imigração vinda sobretudo do norte da Itália, em região vinculada ao mundo austríaco, e também do universo social germânico. Os europeus que aqui chegaram, na verdade vieram de um universo na fronteira entre o mundo alemão e o mundo italiano para juntarem-se no território a indígenas e negros, além dos descendentes dos primeiros colonizadores portugueses. Outras nacionalidades como libaneses, austríacos, suíços, por exemplo, tanto aqui chegaram no século XIX. Mas foram italianos, alemães e pomeranos que deram o tom do processo.

    Disponibilizarei a sequência de artigos no blog na ordem em que os escrevi, e na mesma ordem em que li os textos que os inspirou. Obviamente que não existe nada na sequência além da ordem da leitura e a escrita. Cada um dos povos deu sua importante contribuição na formação do conjunto capixaba.

    O primeiro texto, que reflete sobre a Imigração Germânica a partir da obra de Helmar Rölker, levanta alguns dos elementos que tornaram possível a construção, ou do ponto de vista dos que imigraram, da manutenção de uma sociedade de camponeses. Fenômeno que certamente a ajuda a explicar porque os imigrantes mantiveram-se tão agarrados ao mundo rural no Espírito Santo, sobretudo ao mundo da cultura do café.

    Durante um século vivemos esse ideal camponês de forma quase perfeita. E, ainda hoje, somos um estado muito vinculado a dimensão agrícola. Seguramente parte integrante de nossa identidade social. Mas, apenas um exemplo de como é possível tecer, a partir da herança história, a complexa teia de elementos que fazem os capixabas e o Espírito Santo serem como são.

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    Os três livros que, como secretário de Cultura, tive o prazer e oportunidade de escrever os prefácios.

     

     

  • Diversidade no palácio

    João Gualberto

    Os espaços culturais no Século XXI – como os museus, por exemplo – ampliaram seus horizontes e democratizaram suas ações, abrindo-se de forma radical para a inclusão tanto na produção daquilo que será exposto quanto em seu acesso. Não foi por outro motivo que o governo estadual desde o final da gestão anterior do governador Paulo Hartung, abriu de forma republicana o Palácio Anchieta como espaço de vivência da cultura.

    Ele abriga neste momento – e até o dia 06 de novembro – a exposição Constelações do importante artista capixaba Hilal Sami Hilal. Trata-se da terceira exposição no atual governo Paulo Hartung, trazendo ao público as obras de 3 pesquisadores e artistas capixabas com diferentes performances e atuações. Mas elas foram todas escolhidas dentro de mesmo critério, decorrente da proposta construída para o espaço.

    Vejamos, a primeira, de caráter científico, Corpo Humano (veja um pouco do conteúdo no vídeo abaixo): da Célula ao Homem, foi realizada entre 09 de junho e 13 de setembro do ano passado. Ela contou com 280 peças do Museu de Ciências da Vida da Universidade Federal do Espírito Santo e teve a curadoria do Professor Doutor Athelson Stefanon Bittencourt, um grande pesquisador capixaba de prestígio internacional. No período em que ficou exposta, foi visitada por mais de 42 mil pessoas.

    Depois veio a exposição histórica inédita Postais do Espírito Santo: Acervo do Monsenhor Jamil Abib, construída ou partir de um longo projeto de pesquisa do Professor Paulo de Bastos, reconhecido estudioso capixaba da arte fotográfica. Foram mais de 300 exemplares – produzidos entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, período de seu apogeu artístico – com registros dos aspectos dos costumes, da história e da arquitetura local. A exposição foi produto de forte elaboração intelectual e artística.. Visitada por quase 20 mil pessoas, teve na chamada visitação espontânea mais de 15 mil pessoas, atestando seu sucesso.

    Agora os capixabas podem apreciar Hilal no Palácio Anchieta, importante artista capixaba que trabalha o espaço como uma instalação, ou seja, projeto que dialoga com a arquitetura interior. É a primeira vez que o Palácio se transforma desta maneira. Isso abre uma nova interpretação da utilização do lugar, mostrando uma multiplicidade de usos e narrativas. Como registrou o próprio Hilal em artigo no Caderno Pensar do dia 30 de julho passado, para explorar ainda mais a poética da obra ele convidou para a curadoria Neusa Mendes que, em conjunto com a psicanalista Ruth Bastos e o físico Laércio Ferracioli, aprofundou a visão sobre o trabalho através da análise sob o ponto de vista da interpretação crítica, da psicanálise e da ciência.

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    Detalhe da exposição Constelações

    Sete escolas da rede estadual foram convidadas para participar do projeto Constelações escrevendo seus próprios nomes, dos seus entes queridos e dos seus heróis. Hilal teve como meta – segundo seu depoimento no mesmo artigo – ter aproximadamente 10 mil nomes, 10 mil estrelas. 2 mil e 500 alunos, professores e assistentes ajudaram na elaboração da obra. Esse seu caráter enche de significado nosso espaço. É disso que se trata.

    Finalizando, a proposta do Espaço Cultural Palácio Anchieta é permitir que seus visitantes conheçam os diferentes aspectos que a criação visual abrange. Para os jovens, esses são os tempos das novas interpretações e atuações no universo existencial e também propor uma reflexão sobre todas essas possibilidades. Arte, ciência e história, este encontro maravilhoso que anima hoje o mundo dos museus e espaços criativos.

     

    Fotos e vídeo: Arquivo SECULT

  • Economia artisticamente criativa

     

    João Gualberto

    Xavier Greffe, estudioso francês, teve um de seus livros recentemente lançados no Brasil pelo Observatório Itaú Cultural/Iluminuras. Trata-se da obra Economia Artisticamente Criativa. Nele, Greffe afirma: hoje existe uma forte ligação entre as artes e a economia. O que tem se chamado de economia criativa, mostrando que as artes tem um papel importante no mundo econômico contemporâneo. Na verdade, elas não constituem mais um setor restrito para os quais se dirigem olhares gentis. Elas tem para o autor uma dimensão transversal que fertiliza a criatividade social e produtiva (p.183).

    São estas compreensões que nos animaram para criar um programa denominada Economia Criativa no âmbito das políticas públicas do governo estadual. Pretendemos construir uma convergência entre cultura e desenvolvimento. Temos convicção de que a cultura é alavanca importante para o desenvolvimento econômico e social de um país ou de uma região. Alavanca que ajuda a repensar modelos de crescimento com novas fontes de energia e uma nova postura do ser humano frente ao desafio da promoção do desenvolvimento sustentável.

    Está claro o Espírito Santo tem um potencial cultural muito forte. São manifestações da chamada cultura tradicional, ou da gastronomia, artesanato, artes visuais, cênicas ou audiovisuais por exemplo. Existem hoje cinco sítios históricos , São Mateus, Itapina, Santa Leopoldina, Muqui e São Pedro de Itabapoana. Temos que trabalhar estes lugares privilegiados de nosso patrimônio arquitetônico e cultural como elementos do nosso desenvolvimento, sobretudo através do turismo que os valorize e tenha a capacidade de levar a eles novos negócios que signifiquem emprego e renda.

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    Economia Artisticamente Criativa, de Xavier Greffe

    Quando assumimos a secretaria da cultura, havia um projeto governamental praticamente desativado no campo da economia criativa, e que envolvia a secretaria. Foram feitas inúmeras rodadas de conversas e negociações com as várias secretarias envolvidas, como por exemplo: turismo, desenvolvimento econômico ou ciência e tecnologia. Além disto, estiveram envolvidos nestas movimentações iniciais o Sebrae, a Findes e o Bandes. Enfim, iniciamos um esforço técnico e político de dar nova dinâmica a estas atividades.

    Temos nossas razões. Para ficar em um exemplo importante, nossa indústria – como as que existem nos arranjos produtivos de Linhares com indústria moveleira ou Colatina com a moda – são ricas em criatividade no campo da produção. Nossa intenção é potencializar esta capacidade criativa, dando maior competitividade ao produto capixaba. O Banco de Desenvolvimento – BANDES – na gestão de seu presidente Luiz Paulo Veloso Lucas, criou várias linhas de financiamento à economia criativa que dão materialidade aos nossos planos neste momento.

    Mas estamos muito focados em formação no campo da criatividade e das profissões que a exijam, utilizando o fazer artístico no campo econômico, criando entre nós uma verdade noção do que seja Economia Criativa. Parte desta formação estará localizada em territórios tidos como de alta vulnerabilidade e onde os jovens tem poucas alternativas de trabalho. Trata-se de formar pessoas para profissões mais atraentes e que digam respeito ao mundo da juventude de hoje. Ao mundo digital, já estamos iniciando um trabalho em Vila Nova de Colares no município da Serra.

    Outro elemento importante que o projeto do governo do estado não poderá ignorar é a tecnologia. O mundo em que vivemos e aqueles que entram hoje no mercado de trabalho, de qualquer um dos setores sociais, não querem somente as profissões tradicionais. Por isto temos que ter um foco bem específico na base tecnológica no elemento central da Economia Criativa

    Além destes fatores todos já listados, a economia criativa também contribui significativamente para o desenvolvimento social. Seu potencial de gerar  autoestima, qualidade de vida, por meio de atividades prazerosas e representativas das características de cada localidade estimula o crescimento inclusivo e sustentável. Por isto a elegemos como política central de nosso mandato.