• Collor e Bolsonaro: a aventura dos “outsiders” em Brasília

    Acabo de fazer uma leitura muito interessante e que nos enriquece com elementos do passado recente, ao mesmo tempo que nos ajuda a entender a crise que estamos atravessando. Trata-se do livro O Estado a que Chegamos: falência de um modelo de organização que impede o desenvolvimento nacional, recentemente lançado. O autor é João Santana, um destacado membro da equipe de Fernando Collor na presidência da república.

    Ele foi inicialmente Secretário de Administração Federal – onde cuidou na reforma do estado levada a efeito por aquele governo – e depois foi o poderoso Ministro da Infraestrutura, que se ocupava das centenas de estatais – muitas das quais mero empreguismo e abrigo de corrupção – herança do período militar. Antes, havia trabalhado no governo Franco Montoro em São Paulo e na equipe do Ministro Funaro, no governo Sarney. Tinha 32 anos quando chegou ao governo Collor.

    Santana analisa de forma lúcida a grande transformação que Collor pretendeu fazer na gestão pública brasileira, que começou reduzindo o número de ministérios de 23 para 12. O autor participou de vários projetos que tentavam reduzir o empreguismo, os gastos supérfluos do governo nacional e iniciou nosso processo de venda das estatais, pela Usiminas. Atacou de frente a reserva de mercado que faziam, por exemplo, a indústria automobilística que vendia carros caros e defasados. Na área de informática essa reserva nos deixava longe da era digital que se iniciava, erámos obrigados a comprar um computador totalmente defasado fabricado por uma estatal.

    O projeto poderia ter feito o Brasil avançar muito em várias áreas. Poderia ter entregue um governo mais limpo, mais ágil, menos gastador e capaz de prestar melhores serviços aos cidadãos. Mas, o presidente renunciou antes do fim de seu terceiro ano de governo, pilotando uma crise política e ética. Santana nos ajuda a entender porque o governo fracassou. Na verdade Collor não tinha base congressual, não tinha um partido forte e nem fez as alianças necessárias a enfrentar o grande número de interesses que havia. Além disso, deixou-se enredar pelos elementos da política provinciana de Alagoas e do seu operador de interesses financeiros, o PC Farias. 

    Resultado, foi sendo encantonado pelo sistema político, em especial segundo Santana, pelo antigo PFL comandado a época por Jorge Bornhausen. Trouxe para dentro do governo e da base congressual o que havia, segundo ele, de mais atrasado na política brasileira. Demitiu os que acreditavam no projeto inicial e passou a ter suporte em pessoas que agiam só por cálculos políticos. Pessoas que dominavam o jogo do congresso e eram muito mais fortes do que o presidente.

    Congresso Nacional, em Brasília: tanto Collor quanto Bolsonaro ficaram reféns do Centrão. Crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado

    Agindo assim, abraçou o passado e o trouxe para dentro de casa. A despeito de ter tido incialmente um projeto aprovado nas urnas, de ter montado uma equipe com capacidade de conduzir aquele projeto, perdeu. E perdeu porque não soube fazer política, não soube operar com o capital eleitoral que tinha e se deixou levar pelo atraso, que o traiu.

    Collor tinha um projeto econômico e de estado muito mais denso do que o de Bolsonaro. Iniciou um trabalho com muito mais profundidade do que o capitão, que tem um olhar de superficial e conseguiu articular o ódio que ainda temos ao sistema político tradicional.  Entretanto, pilota um governo sem entregas, com excessiva ênfase ideológica e sem um projeto de nação.

    Mas, por mais diferentes que tenham sido os processos de construção e desconstrução dos dois governos, eles têm um ponto em comum: o fato de serem tocados por outsiders da política, por políticos de pequeno porte antes de chegar à presidência. Acabaram por se transformar em presa fácil do atraso. O mesmo “centrão”  que liquidou um, na visão de Santana, liquidará o outro. Por asfixia.  

  • Bley e Jones: a ponte para a modernidade.

    O Espírito Santo na era Vargas

    A Era de Ouro dos coronéis no Brasil, terminou com a chamada Revolução de 1930. Os dois interventores que governaram o Espírito Santo na Era Vargas, entre 1930 e 1945: João Punaro Bley e Jones dos Santos Neves, foram, na verdade, nossa ponte entre o velho Espírito Santo das elites do café e um espírito novo que nascia em toda a nação, mas que eles personificaram em nosso estado. Foram eles nossa ponte para a modernidade.

    O imaginário central da república dos coronéis era o da exclusão política das massas. Melhor da incapacidade política das massas. Seu papel no grande jogo da política era subalterno. Para ficarmos em um exemplo, vejamos como nossos maiores estadistas da primeira república tratavam as obras públicas que fizeram. Eram todas voltadas para os mais ricos. Gilton Ferreira fala em sua tese de doutorado que os códigos que disciplinavam a vida em Vitória, proibiam que os pobres visitassem os jardins públicos como o Parque Moscoso a grande obra desse período. Eram as classes perigosas no jargão oficial que usavam.

    Mas, o Movimento de 1930 trouxe novidades na gestão política do Espírito Santo. Em primeiro lugar por ter saneado as finanças públicas do governo estadual, fortemente abaladas pela crise mundial iniciada em 1929. Investiu fortemente em saúde e educação.  Assim, ele construiu leprosários, sanatórios, asilos, hospitais, casas de saúde, penitenciárias, escolas, internatos. São da gestão de o Hospital das Funcionários Públicos, o maior do estado na época. Implantou ainda a Rádio Espírito Santo.

    Por fim vale também registrar que ele implantou as Faculdades de Odontologia, de Farmácia e de Direito. Colocou a funcionar também a Escola Técnica Vitória e a Agro técnica de Santa Tereza. Ou seja, moldou um conjunto de obras com uma abrangência bem mais ampla do que as cidades republicanas construídas pelos velhos coronéis

    Foi Bley quem colocou em funcionamento a hidrelétrica de Rio Bonito e construiu a Usina Suíça, além de ter construído o caís de minério do Porto de Vitória. Ele também construiu o Quartel a Polícia Militar em Maruípe. Cito essas obras, além do Estádio Governador Bley em Jucutuquara, para dar uma ideia rápida das ações importantes do seu governo.  

    Bley deu um passo muito importante na construção do Espírito Santo moderno. Passo esse que foi seguido por Jones dos Santos Neves. Bley chegou ao Espírito Santo com as tropas ditas revolucionárias em 1930 e ficou no governo até 1943, quando foi substituído por Jones, que deu prosseguimento a sua obra. Podemos dizer com toda certeza que o Espírito Santo de hoje. Nas palavras do brilhante historiador João Eurípedes Franklin Leal, Jones fez a travessia entre a velha e a nova república. Seu projeto de modernização ultrapassou seus dois governos – já que foi governador eleito em 1950.

    Quando falamos de Jones dos Santos Neve, devemos levar em conta que a sua obra iniciada ainda nos anos 1940 seria sentida em prédios escolares, postos de saúde, estradas, fóruns, cadeias, serviços de água entre muitos outros. Aprofundou e atualizou o projeto varguista em muitos sentidos. 

    Mas, ele sobretudo instituiu o planejamento como um instrumento de poder para impor um sentido que ele dava ao seu governo e ao desenvolvimento do Espírito Santo. Tanto no Plano de Obras e Equipamentos na interventoria, quanto o Plano de Valorização Econômica do Espírito Santo, no governo democrático. Nasceu do chamado projeto jonista as bases da industrialização em nosso estado. O que não é pouco. Assim, em plena ditadura Vargas dois grandes dirigentes fizeram avançar muito o nosso estado. 

  • CARIÊ LINDENBERG

    O Espírito Santo tem em sua história recente – a chamada história do tempo presente –  alguns personagens que fizeram a diferença na construção de um território cultural moderno e empreendedor. Três desses construtores da modernidade partiram nesse ano de 2021. Jônice Tristão, Lorentzen, criador da Aracruz Celulose e Cariê Lindenberg.

    Pois hoje quero fazer um breve histórico da contribuição de Cariê à construção da nossa modernidade. Fazer uma espécie de síntese de seu amor pela liberdade e a forma com que ele contribuiu para que ela fosse forte entre nós, seja como músico, como escritor ou empresário. Mas, sobretudo quero tratar de seu papel fundamental como empresário da área de comunicação, embora as outras faces do cristal estejam presentes em toda a sua obra, a mais importante do ponto de vista social foi sem dúvida a construção da Rede Gazeta de Comunicação.

    Comecemos do começo. Cariê nasceu no Rio de Janeiro, mas veio para Vitória ainda bebê, e foi aqui que cresceu, casou, criou seus filhos e prosperou como homem de comunicação. Filho do político mais poderoso do Espírito Santo no pós-guerra, Carlos Lindenberg, que foi, entre outras coisas, por duas vezes governador do estado (1947/1951 e 1959/1962) nunca quis ingressar no mundo da política. Ajudou o pai em campanhas eleitorais e ocupou postos de estrita confiança do governador em seu gabinete, mas jamais desejou dar prosseguimento familiar à saga política herdada desde Jerônimo Monteiro. Foi sempre auxiliar discreto. O poder não lhe interessava nesse plano. Ele nunca quis ser rei.

    Mas foi, de fato, um capixaba notável. Sua trajetória da maturidade foi iniciada como advogado formado na PUC do Rio em 1958. Essa profissão nunca chegou de fato a exercer. Seus tempos de juventude no Rio foram consumidos em outras frentes. Foi nessa época que ele acompanhou o surgimento da Bossa Nova, convivendo com figuras de proa daquele movimento como Miéle, Roberto Menescal e Tom Jobim.

    Costumava dizer – no tom bem-humorado com que levou a vida e mesmo com certa dose de exagero –  que não gostava de música, gostava de Bossa Nova. Dessa sua paixão pela música surgiu Devaneios, composição sua que por muitos anos abriu e fechou a programação da TV que fundou, a TV Gazeta, transmissora capixaba da Rede Globo. Reuniu frequentemente os amigos em tardes musicais em sua casa na Ilha do Frade, onde tinha um palco dentro da sala. Ainda no campo das artes, na literatura, teve uma vocação tardia.

    Passou as duas últimas décadas de sua vida escrevendo crônicas, memórias bem-humoradas e reflexões sobre a sociedade. Desde “Eu e a Sorte”, o primeiro de 2002, até “Vou Te Contar” de 2019, com destaque para “Pingos e Respingos” onde tratou das graves consequências das fortes chuvas que caíram sobre o Espírito Santo em 1979.

    No seu último ano de vida começou a organizar algumas reflexões políticas sobre os impasses do Brasil atual. Andava sem paciência com o que via, não concordava com a forma de governar que estamos vendo no país, do ódio que se espalhava. Alinhavava sugestões. Acho que contava comigo para escrever o prefácio, e me mostrou a primeira versão. Esse livro ficou inacabado. Problemas de saúde o afastaram da escrita. A morte o levou antes do fim do trabalho.

    Mas, voltemos a trajetória de vida do nosso personagem, ao começo de tudo. Como costuma acontecer com aqueles que tem alma de artista, mas espírito empreendedor virou publicitário, ou melhor dono de agência. Foi um dos fundadores da primeira agência capixaba, e Eldorado Publicidade, em 1965. A agência foi criada para ajudar a instituir um mercado publicitário mais profissional. Ele sentia essa ausência de profissionalização por sua participação na Plano Engenharia.  Essa dupla militância entre a artes e os empreendimentos o acompanharia toda a vida.  E teve tudo a ver com a sua militância no jornalismo. Sem fortes anunciantes não existe imprensa livre e independente.

    Em 1963 passou a trabalhar no jornal que pertencia ao seu pai como diretor comercial.  A partir daí, começou a contribuição que seria a mais definitiva na vida política, econômica e social capixaba. Criar uma imprensa moderna e livre de amarras partidárias.

    Antes da gestão de Cariê era o jornal do grupo político do PSD, partido conduzido por seu pai de forma ainda coronelística. Uma espécie de panfleto, como aliás eram todos os veículos naquela época. “A partir de 1967, eu fiz em A Gazeta um paciente, longo e exaustivo esforço para desvinculá-la de um grupo político, o PSD”, ele escreveu em “O fato e sua versão”, publicado em Eu e a Sorte.

    A inflexão em termos dos maiores jornais foi dada pelo espírito ético e vanguardista do Cariê. Isso sem grandes alardes, como era de seu feitio. Doce e suave como ele próprio as mudanças foram sendo instituídas. Se por um lado os governos militares criaram obstáculos pela instituição da censura, por outro lado quebrou as fronteiras partidárias ao criar o bipartidarismo e abrigar na Arena de Carlos Lindenberg antigos desafetos políticos. Muitos foram incorporados ao jornal.

    A Gazeta mais profissional incorporou intelectuais importantes, criou uma nova compreensão da vida cultural. O passo definitivo, para ele mesmo admite em seus escritos, para a consolidação de uma moderna rede de comunicação foi a implantação de um canal de televisão afiliada da Rede Globo, em 1976. Foi uma longa batalha travada pela concessão oficial. Mas, a nossa sorte grande estava na forma como ele passou a gerenciar o canal. Ao contrário das elites regionais como as do Maranhão, Bahia ou Alagoas, por exemplo, ele deu direção totalmente profissional a concessão.

    Rede Gazeta, em Vitória, afiliada da Rede Globo com uma história singular.

    O Espírito Santo renovou sua vida política de forma extraordinária com o fim do ciclo dos militares. Nenhum dos governadores eleitos a partir da volta das eleições diretas em 1982 saiu das elites nascidas nas fazendas de café. Igual juízo de pode fazer para os prefeitos da capital e das principais cidades de nosso estado. De Gerson Camata em 1982 até os dias atuais. De Hermes Laranja em 1985 a eleição de 2020, nenhum dirigente pertenceu mais às elites rurais e nem as fracções da burguesia local.

    Naquele momento decisivo ele incorporou a face dos nossos construtores da modernidade. Foi profissional. Não fez o jogo do varejo da política. Foi grande. Agiu com grandeza de espírito. Nunca cedeu ao jogo de poder regional que marcou a vida de outras grandes redes regionais Brasil a fora.

    Isso não foi obra do acaso. Nossa base econômica se renovo muito, mas a presença forte da Rede Gazeta de Comunicações sempre se fez sentir. Quando o germe da corrupção ameaçou se abater sobre nós, lá estava o Cariê ao lado dos que queriam o bem-estar dos capixabas, fundando o Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação, uma ONG empresarial moderna e atuante.

    Assim era o Cariê em suas posições políticas e empresarias. Um liberal, um artista, um democrata. Por tudo isso podemos colocá-lo entre os personagens que construíram o Espírito Santo moderno.

  • MARIA ORTIZ: uma heroína capixaba

                                                                                                                                                                                                       João Gualberto

    Maria Ortiz nasceu e viveu em Vitória – durante a chamada União Ibérica, entre 1580 e 1640 – quando os espanhóis tiveram seus domínios estendidos para o Brasil. Os pais dela nasceram na Espanha e para cá vieram em 1601, com as facilidades que foram criadas para esse tipo de intercâmbio. Ele nasceu dois anos depois.

    Primeiro, vamos entender um pouco aquele momento histórico. Ele estava marcado pelo fato do comando de toda a colônia, derivado da mesma União Ibérica, haver desarticulado todo o sistema de comercialização do açúcar brasileiro, que até então era apoiado em uma articulação entre os mercadores portugueses – que tinham monopólio da venda de toda a produção brasileira – e os holandeses. Os últimos faziam de fato as vendas e a distribuição para o mercado europeu. 

    Portanto, é preciso ficar claro que os holandeses eram sócios da economia açucareira do Brasil, já que investiam capital no transporte e em etapas da própria produção, mas os espanhóis estavam em guerra aberta contra a Holanda. 

    Porém, com a União Ibérica os espanhóis acabaram cortando as relações econômicas entre portugueses e holandeses, desarticulando esse arranjo que abrigava tantos interesses. A reação dos holandeses foi a criação da Companhia das Índias Ocidentais, que era de fato uma grande empresa comercial para a época. Sem acesso aos mecanismos comerciais que estavam estabelecidos, resolveram estabelecer uma colônia no Brasil. 

    A primeira tentativa se deu na Bahia em 1624. Logo depois em 1625 foi a vez do Espirito Santo. Os holandeses atacaram Vitória com oito naus, que ficaram ancoradas na baía de Vitória. O governo da capitania organizou a defesa. O acesso ao centro da vila se dava por uma ladeira íngreme e estreita onde hoje existe a Escadaria Maria Ortiz. No pé da ladeira havia um pequeno cais. Maria Ortiz, uma jovem de 21 anos, morava num sobrado no alto dessa ladeira. 

    A jovem capixaba utilizou sua grande capacidade de liderança para arregimentar pessoas do povo que não participavam das forças oficiais, e organizar um reforço da defesa. Assim, quando os holandeses começaram a subir a ladeira foram surpreendidos por essa força popular que estava alojada nos sobrados. Foram despejadas pedras, paus, água fervendo, brasas, dejetos. Enfim, tudo o que estava ao alcance do improvisado grupo de defesa. 

    Evidentemente que tais esforços não foram suficientes para a expulsão dos invasores, como diz a lenda, mas deu o tempo necessário para que as forças oficiais fossem se posicionando de forma a permitir a defesa de fato. Enquanto se travava a luta, a mesma Maria Ortiz exercia um notável papel de liderança, incentivando a todos ao combate. Tudo isso está contado por Nara Saleto no livro “Donatários, Colonos, Índios e Jesuítas”.

    De fato, os holandeses foram rechaçados, mas tornaram a atacar a vila e as fazendas que haviam na mesma área. Foram derrotados com a participação da armada de Salvador Correa de Sá, que chegava ao Espírito Santo naquele momento. Mas, não foram poucos os prejuízos que causaram. 

    Quanto a nossa jovem heroína, pouco se sabe dela depois disso, a não ser que morreu aos 43 anos aqui mesmo na ilha que ajudou heroicamente a defender. Por ser pessoa simples e sem títulos de nobreza, poucos registros temos dela. Aliás, pouco falamos de nossos heroísmos populares.

    Quanto aos holandeses, foram expulsos da Bahia logo depois do ataque ao Espírito Santo. Mas dois anos depois em 1628 saquearam uma grande frota que transportava prata vinda do Peru para a Espanha.  Com os recursos obtidos com esse saque preparam uma poderosa armada que conquistou Pernambuco, que tinha a melhor produção de açúcar naquele ano de 1630. Lá ficaram por 24 anos, e deixaram um grande legado para a história.

  • COLONIZAÇÃO CAPIXABA

    Em maio de 1535 os portugueses chegaram ao Espírito Santo.  Na nossa história oficial comemoramos no dia 23 de maio, com o pomposo – e algo fora de moda – nome de Colonização do Solo Espírito-Santense. Na verdade, o início de nosso processo de construção de uma nova sociedade. Bem perversa.

    Vamos relembrar essa história. Os portugueses dominavam a arte da navegação. Havia toda uma tecnologia que lhes permitia a aventura de atravessar o Mar Tenebroso, como chamavam o Oceano Atlântico. O comércio de Florença e de outras cidades italianas com o mundo árabe estava prejudicado desde a metade do século XV pela tomada de Constantinopla pelos Turcos. Muitos capitais italianos ligados ao comércio no mediterrâneo buscaram novas alternativas. Havia interesses comerciais e havia interesses religiosos. 

    A vinda dos portugueses para o Brasil não deixou de ser uma espécie de continuidade das cruzadas. Continha o combate aos infiéis, que no nosso caso eram os indígenas. Os nativos da terra podiam ser cristianizados, aí seriam salvos, ou podiam ser escravizados, o que ocorreu a um grande número. Mas, a maioria foi mesmo exterminada.

    Como registrou Adilson Vilaça, não há colonização sem dor. “Morte e sangue vertido, morte e sangue perdido, morte e sangue pervertido – morte sob o ataque do aço, morte por enforcamento, morte após tortura e estupro. Porque não há colonização sem dor. Sem muita dor”.

    O que os capitais italianos queriam eram lucros polpudos. O que os navegadores portugueses queriam era expandir os seus limites. O que queria a nobreza portuguesa era ouro, prata, pedras preciosas. A aventura ultramarina era estruturada a partir da fé e dos interesses comerciais. Pau Brasil, cana de açúcar eram, por assim dizer, riquezas intermediárias. O objetivo do enriquecimento rápido, da ética da aventura, para ficar numa expressão do grande historiador Sérgio Buarque Holanda em Raízes do Brasil, era ouro.

    Voltemos ao Espírito Santo. O primeiro de nossos donatários, aquele que ganhou o direito de expressão de tudo o que houvesse com as regras que ele mesmo criasse, foi Vasco Fernandes Coutinho e ganhou por seus triunfos nas guerras lusas na África e na Ásia. Era um homem com proezas de guerra. Com eles vieram os tais degredados, 58 bandidos comuns, desorelhados. Era hábito que esses condenados fossem desorelhados, orelhas extraídas como parte da pena. A justiça portuguesa andava com mão pesada para condenar muitos pobres ao degredo, por crimes como bigamia ou moeda falsa, e assim favorecer a colonização. 

    Mas, entre os tais degredados, havia dois nobres particularmente perversos: Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco. Dom Jorge de Menezes havia sido governador de uma ilha nas Índias, e tantas foram as suas loucuras e maldades que foi mandado a ferros para Portugal, de onde saiu para vir para o nosso Espírito Santo, para ajudar Vasco Fernandes Coutinho a comandar a tal colonização. 

    Dom Simão Castelo Branco também havia chegado a ferros a Portugal, vindo de Marrocos, de onde fora destituído de suas funções de governo, por corrupção. Também foi mandado para o Espírito Santo juntos com o primeiro donatário.  Foram tão maus que acabaram sendo assassinados pelos índios, em escaramuças sanguinárias. Dom Jorge de Menezes começou um cruel processo de escravização dos índios. Mas eles eram os valentes Goitacazes, talvez os mais temidos guerreiros de todo o litoral, e responderam de forma dura com uma guerra que acabou com a morte dos dois. Foi, digamos assim, um encontro de selvagerias. 

    É preciso rever certas festas cívicas, entre ela a data da Colonização do Solo Espírito-Santense. O evento merece ser lembrado como marco de dor e maldade, como a imposição de uma cultura toda voltada para a ambição desmedida. Como bem lembrou Adilson. Não há colonização sem dor. Sem muita dor.

  • O NOVO NA POLÍTICA BRASILEIRA

    O sistema político brasileiro foi construído, desde de sempre, de costas para a opinião pública, ou, como dizia Pedro II, da opinião nacional. A independência e a nossa primeira constituição, o sistema parlamentarista de pé quebrado instituído por ela, o centralismo do Império, tudo foi feito longe da escuta popular.

    Quando o Império esgotou seu papel, quando a insatisfação se instalou, abriu espaço para um tipo de republicanismo onde as eleições eram meros detalhes, fraudadas escancaradamente. Para dar um exemplo, na eleição de Jerônimo Monteiro em 1908, ele teve cerca de 18.000 votos, e o seu adversário, o Barão de Monjardim teve 13 e o Dr. José Belo de Amorim, 10. Eram vitórias na mão grande, para usar uma expressão atual. 

    Também a Proclamação da República foi um Golpe Militar, sem o envolvimento da militância republicana. O povo a tudo assistiu bestializado registrou o jornalista Aristides Lobo no dia 15 de novembro, no Rio de Janeiro.

    A charge de Miguel Paiva: Constraste com a épica imagem “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em 1886 (Portanto, 64 anos após a separação do Brasil de Portugal)

    No século XX, duas ditaduras atropelaram nosso sistema político: a de Vargas iniciada nos anos 1930 e a dos militares iniciada em 1964.  A retomada da democracia se deu através das elites tradicionais. Maior prova disso é que José Sarney foi o nosso primeiro presidente depois da ditadura, em 1985. Mas, sempre ouve uma tensão entre o novo e velho em nosso sistema político. Desde sempre. O velho vem se impondo, às vezes imbricado com o novo. Em vários momentos a sociedade optou pelo novo. O arcaico não se impôs como um bloco monolítico.

    Há uma grande confusão no eleitor brasileiro, que julga que o novo é uma questão geracional. Votar em um jovem não significa votar no novo na política, votar em uma pessoa vinculada a religião não significa dar um voto ético. Mas embalado por uma certa ingenuidade política, os brasileiros têm agido assim.

    Fiz uma recapitulação histórica muito breve. Vamos, entretanto, nos fixar nos momentos mais recentes. Em especial nas eleições disruptivas de 2018. No Espírito Santo os experientes senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço foram substituídos por dois novatos, sem passado político. Por todas as evidências foi o alinhamento simbólico com a campanha de Jair Bolsonaro que os levou a Vitória.

    A espetacularização do combate a corrupção feita pela operação Lava Jato talvez tenha sido o estopim dessa disruptura. O cansaço com a velha política, a existência de elites partidárias totalmente corrompidas deu o motivo para o voto no novo, no desconhecido, de certa maneira na aventura. Governadores de dois estados vizinhos nossos foram eleitos assim: Rio de Janeiro e Minas Gerais. Um desejo de mudar, que não é novo, foi potencializado pelas evidências de corrupção exibidas na televisão e no restante da mídia. O PT foi reduzido politicamente de forma drástica. 

    Disso todos sabemos. A nossa questão é quanto desse desejo de disruptura ainda está presente em nosso imaginário político. Como ele se apresentara agora? Tivesse sido o governo Jair Bolsonaro um sucesso até agora, nós teríamos a resposta fácil. Mas, não é o caso. Sobretudo diante da pandemia do novo corona vírus, ele teve uma condução negacionista. Fosse o governo um fracasso também seria fácil falar. Mas, o governo tem sua popularidade, o presidente tem sua bolha fiel. Estamos no meio. Isso significa que poderemos ter diferentes apropriações do fenômeno do novo.  

    As primeiras pesquisas de opinião realizadas nas maiores cidades, como é o caso de Vitória, mostram o surgimento de políticos com experiência. Então temos um elemento ainda não definida o para o próximo pleito. A experiência terá que papel? A busca do novo terá que peso?

    Evidentemente que a velha política terá mais uma vez um papel negativo. O que parece é que aqueles que tiverem uma mancha com a corrupção serão punidos. Mas não acredito que tenhamos uma repetição da disruptura que levou o capitão ao poder. Não naquela intensidade. O fenômeno tende a se repetir de forma mais matizada, menos abrupta.

    Cabe ao campo democrático discutir esse novo. Seu conteúdo, sua característica. Senão vamos repetir as frustações de votar em um candidato que é jovem, mas que não porta nenhuma novidade seja na formulação, seja na ação política.

  • COMO VENCER A TRUCULÊNCIA

    Em termos políticos, o mundo tem sido varrido por uma nova onda ocidental, organizada a partir de discursos nacionalistas, conservadores e autoritários. Os estudiosos que têm analisado esses novos modelos “democráticos” – chamados de democracias iliberais por líderes desses movimentos, como Vitor Orban, da Hungria, por exemplo – convergem em um ponto: o entendimento de que a nova extrema direita quer sufocar as instituições democráticas, impondo valores conservadores, além de operar, de maneira permanente, para ampliar o seu poder.

     

    E esse fenômeno também pode ser observado aqui, no Brasil, uma das mais jovens democracias do mundo.

     

    Em seu livro “Os engenheiros do caos”, o escritor italiano Juliano Da Empoli analisa, por meio de posturas caricatas como a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e de Jair Bolsonaro, atual chefe do Executivo nacional, a chegada dos outsiders (aventureiros políticos) ao poder por meio do caos nas sociedades em que estão inseridos. O pano de fundo para o estudo de Empoli é a forma como esses atores descobriram que a democracia, na era do narcisismo de massa e da força das redes sociais, pode oferecer possibilidades inesperadas de mobilização social.

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    A obra de Empoli está repleta de exemplos contundentes acerca das manipulações feitas a partir de mecanismos como o da disseminação das chamadas fake news (notícias falsas) em função do interesse particular. O texto destaca, por exemplo, a ousadia do americano Steve Bannon, conhecido como o homem-orquestra do populismo norte-americano, que, depois de ter conseguido eleger Trump, sonha fundar uma “Internacional Populista”, para combater o que ele define como “o partido de Davos das elites globais”. Bennon trabalhou na campanha de Bolsonaro, tendo trazido muito dessa tecnologia global de construção do medo coletivo e da balbúrdia social, cada vez mais presente na nossa política. A tática do americano se mostrou eficiente para vencer as eleições.

     

    No entanto, a atual pandemia que enfrentamos, com o avanço do novo coronavírus no mundo, veio descortinar e expor a fragilidade política e gerencial dessa estruturação política fundada no caos e nas informações desencontradas. Diante de um desafio como esse que governos de todo planeta têm enfrentado atualmente, os líderes que têm seus mandatos consolidados por meio do conflito e da polarização social, não têm dado a resposta devida ao problema. Precisamos vencer esse modelo paralisante, focado no embate. Nosso desafio é desconstruir essa trajetória de irresponsabilidades políticas e manipulações, feitas pela propagação de uma rede perversa para destruir reputações – como o famigerado “gabinete do ódio”, instituído com o intuito de divulgar mentiras acerca de projetos e pessoas que se posicionem contra o atual governo. Não podemos construir uma nação justa e igualitária com bufões como Bolsonaro e sua trupe, cujo maior trunfo político é uma ignorância militante, uma capacidade de mentir e de criar situações antes impensáveis e inaceitáveis na nossa democracia.

     

    É urgente que se comece a pensar novos modelos políticos. O coronavirus é, hoje, uma ameaça real para o mundo inteiro. Como governos chefiados por personagens que chegaram ao poder mentindo, ridicularizando, ofendendo – que é a única coisa que sabem fazer – se comportarão diante da evidente necessidade de uma gestão séria e comprometida da crise? A impressão que tenho é a de que eles “derreterão” diante da realidade dos fatos, até porque a verdade nua e crua tende a assustar quem sempre lidou – e fez uso também – com factoides. Bastava a mentirada que alimentam todo dia nas redes, dos absurdos que falam e das desavenças que criam. A gestão é para ser delegada aos especialistas em cada área, os postos “Ipiranga”. As lideranças fajutas que chegaram ao poder estarão esgotadas no curto prazo.

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     Bannon:  diretor executivo da campanha presidencial de Donald Trump, em 2016.[4][5]
    Não restam dúvidas sobre a necessidade de encontrar uma saída que dê conta das nossas demandas. Mudanças que já estavam em curso em importantes segmentos da sociedade e que podem fundar uma nova política serão aprofundadas, caso haja o fim desse populismo chancelado e reverberado pelos líderes religiosos simpatizantes do conservadorismo. Por outro lado, as velhas esquerdas estão fragilizadas. Caso essa nova direita populista saia do centro do poder, como será construída a nova cena política nacional?

     

    Em primeiro lugar, ao que tudo indica e aos preços de hoje, a nossa saída será à direita. O eleitorado brasileiro está cansado das elites tradicionais. A rejeição não é só ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas, também, aos políticos de tradição social democrata e, por fim, aos membros do chamado centrão. Alguns movimentos novos, de corte mais cívico, têm sido construídos, mas não estão maduros para ocupar o centro das principais discussões políticas nesse primeiro momento.

     

    Assim, com a falência do modelo populista-olavista, só nos resta imaginar que, na centro-direita, surja um nome capaz de agregar; capaz de absorver os eleitores mais conservadores, mas sem a aliança internacional populista, sem o negacionismo e o terraplanismo. Ou seja, que voltemos a ter capacidade de avançar pelo centro democrático, mas varrendo as práticas mais antigas tão negadas pelo eleitor, hoje.

    Ao rejeitar nossa política dos conchavos e jeitinhos, o povo brasileiro parece agir de maneira correta. Agora, cabe aos democratas apresentar uma saída viável para sucessão da truculência que está no poder atualmente.

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    O presidente Jair Bolsonaro e o filho, Senador Flávio Bolsonaro.

     

     

     

    João Gualberto 
    [1] Doutor em Sociologia Política pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociiales, Paris, França e Professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo.

  • PANDEMIAS E CIDADANIA

    Nossa história política é a história de elites de costas para a maioria da população. É a história de um país escravocrata, onde parcelas importantes da população não tinham direito algum. Nos transformamos em república sem construirmos uma relação política densa com a população, que continuou alijada dos processos de escolha.

    Mas, os tempos foram mudando e a população já não assistia a tudo calada. Bom exemplo dessas mudanças, foi a Revolta da Vacina. As condições sanitárias das nossas cidades, inclusive da capital, o Rio de Janeiro, eram muito ruins. A cidade sofria com problemas de saúde pública.

    O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) tentou enfrentar a questão na capital, nos modos autoritários da Primeira República. Nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Distrito Federal e o médico Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública. Iniciaram sem discutir com a cidade, uma campanha de saneamento da cidade que tinha como objetivo erradicar a febre amarela, a peste bubônica e varíola.

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    A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória.(foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)

    Foram intensos os debates em torno da proposta do governo, e a população em sua maioria era contra. Mas a lei foi aprovada assim mesmo em outubro de 1904. Por ela quem não tivesse o comprovante da vacinação não poderia obter empregos públicos, matricular-se as escolas do governo, viajar, casar, se hospedar em hotéis. Mas em meio a grande tumulto popular no dia 16 de novembro – a revolta havia começado no dia 10 daquele mês – foi decretado estado de sítio e suspensa a vacinação obrigatória. O saldo foi: 945 pessoas presas, 110 feridos, 30 mortos e 461 deportados para o estado do Acre. De fato, a população não entendeu, não foi informada e reagiu. Mostra de que o déficit de democracia já tinha impactos populares naquela época.

    Fomos vencendo isso aos poucos. Nas décadas seguintes obtivemos muito sucesso em campanhas sucessivas de vacinação, quando os brasileiros foram convencidos de que a doenças existiam e de que era possível vencê-las com o engajamento de parcelas importantes da população. Houve uma socialização das informações. Ninguém mais fez revoltas contra a vacinação.

    Mas, nesse momento o governo nacional parece esquecer da nossa história, das nossas lutas e dos nossos sucessos, entregando-se a um negacionismo que nos remete aos tempos da Revolta da Vacina, a uma ausência de discussão típicas dos governos autoritários do passado. Estamos regredindo. Parece que não temos uma política pública clara com relação a pandemia que hora nos assola. Vamos pagar todos o preço dessa recaída autoritária.

     

     

  • SÓ O POVO SALVA O POVO

    A maior tragédia climática que presenciei no Espírito Santo, foram as enchentes que ocorreram em 1979, nessa mesma época do ano. Baixo Guandu, Linhares e Colatina, no Vale do Rio Doce, foram as cidades mais atingidas. Mas as enchentes também chegaram a bacia do Rio Itapemirim, atingiu cidades como Cachoeiro e Castelo.

    Carie Lindenberg dedicou um de seus livros, Pingos e Respingos de 2005, à descrição da tragédia. Mas, ele trouxe à luz também a enorme rede de solidariedade que se construiu em torno do episódio. É dessa época a frase memorável do nosso então Arcebispo, Dom João Batista: só o povo salva o povo. Em 2013, quando fortes chuvas também se abateram sobre nós, mais uma vez lá estava a população capixaba disposta ajudar, sendo solidária com os atingidos.

    Nesse momento, vivenciamos mais uma vez o mesmo processo. Aí estão as fortes chuvas, o despreparo das cidades para lidar com elas, os alagamentos, os desabrigados, a dor. Mas também aí estão os voluntários, os abnegados de sempre com suas redes de ajuda. Nesses momentos trágicos surge sempre essa solidariedade forte, que também é marca desses eventos trágicos.

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    Nós brasileiros não temos muito desenvolvido o amor próprio. Não nos elogiamos como povo. Antes pelo contrário, gostamos de nos menosprezar e de nos sentir menos potentes do que somos. Isso me parece injusto. Acho que nossa solidariedade nasce do mundo dos pobres, daqueles que não tem ao seu lado um Estado potente e preparado para ajudar a vencer as dificuldades do dia a dia. Existem redes inteiras de ajudas coletivas. As igrejas trabalham muito esse elemento.

    Acredito que, sem o sentimento de solidariedade e de compartilhamento, a vida dos desfavorecidos pela fortuna no Brasil seria muito mais dura. Nossas redes de solidariedade nascem desse sentimento profundo, se alimentam nesse imaginário das dificuldades compartilhadas. Por isso a vida se faz possível um em universo de carências. Assim temos nosso sentido de coletividade alimentado. Assim somos brasileiros. Assim somos capixabas. Solidários.

     

     

    João Gualberto

    [1] O autor é Doutor em Sociologia Política, Professor Emérito as Universidade Federal do Espírito Santo e Diretor da Saber Capixaba.