• IMIGRAÇÃO GERMÂNICA E IDENTIDADE CAPIXABA

    Este texto, escrito com prefácio da obra de Helmar Rölke, faz parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros e indígenas. 

    João Gualberto

    Existem livros que são travessias. Quando se termina a sua leitura, a nossa compreensão dos fenômenos da vida social ali tratados mudou. Eles fazem uma ruptura entre o antes e o depois. São os textos definitivos. Eles tem a capacidade de mudar o nosso entendimento do assunto e também de nos incitar a continuar as leituras para complementar nossas informações.

    Foi o que aconteceu comigo depois da leitura da extraordinária obra: Raízes da imigração alemã (História e Cultura Alemã no Estado do Espírito Santo). O autor traça uma magnífica trajetória da imigração alemã em nosso estado. Um trabalho intelectual de grande fôlego e de enorme estatura em seu campo de conhecimento. Segundo nos disse pessoalmente o autor, foram gastos 40 anos de pesquisas. O leitor não duvida deste dispêndio de tempo, tão pormenorizadas são as informações e tão criteriosas são as análises

    Na  primeira parte do livro, denominada de A situação política e Social na Alemanha, por exemplo, foi traçada uma descrição tão profunda do que se passou no século XIX naquela região que temos a clara noção de fazer uma leitura definitiva sobre o assunto. Para entender o século no qual aprofunda sua leitura, ele vai às raízes da construção da Prússia, da sua passagem para o novo império alemão, à sua transformação em república. Chega mesmo a tratar da ditadura nazista no século XX.  O trabalho se aprofunda em cada uma das etapas históricas da Alemanha, de tal forma que ao longo da leitura vai se compreendendo com clareza a montagem de uma arquitetura nacional complexa, como de resto são as de todas as nações europeias modernas que se bateram por séculos em disputas de fronteiras, de línguas e de culturas.

    Chama a atenção na primeira parte do livro, o momento em que o poder da Prússia teve a hegemonia militar e econômica na Alemanha, submetendo todas as províncias. De uma delas  partiu o maior grupo de imigrantes alemães vindos para o Espírito Santo: a Pomerânia.  Ou seja, um fato político na organização das nações europeias no fim do império napoleônico impactou a vinda de imigrantes para a América. Destes fatos esclarecedores o livro está cheio.

    prussia_pomerânia
    O mapa da Alemanha, que passou por importantes transformações, no período de 1870 até 1914: em azul o reinado “Prússia”; em vermelho, a Pomerânia.

    Neste universo prussiano o autor constrói uma espécie de narrativa do cotidiano daquele povo. Ai o texto ganha um grande momento, talvez um de seus melhores. É extraordinária a forma com que este cotidiano, em um exercício  antropológico da maior qualidade, ganha força explicativa para os fenômenos objetos de estudos na obra. Para se ter uma ideia do que era esse dia a dia , ele conta que na Pomerânia, os feudos eram constituídos de uma vasta extensão rural, geralmente dividida em duas partes. Uma do senhor, do suserano, cultivada para ele pelos servos, os vassalos. A outra parte dividida em estreitas faixas para os servos poderem cultivar algo para si. Só podiam trabalhar dois dias da semana em suas faixas de terra. Nos outros trabalham para o senhor feudal. Desta lógica econômica resultam populações miseráveis, já que a produtividade era muito baixa.  É essa massa que buscaria posteriormente se afastar de suas pátrias de origem em busca de outras terras. Sua produção agrícola não permitia sequer o sustento correto de suas famílias. Isto tudo agravado por invernos inclementes. Superar a miséria moveu essas massas campesinas.

    Continuando sua precisão narrativa, nos diz o autor que os servos recebiam cedo sua primeira refeição à base de farinha de trigo, acompanhada de pão integral. Por volta das 10 horas recebiam um pedaço de pão, untado com banha de porco, o Schumutlbrot, e um trago de aguardente. O pão também podia vir acompanhado de uma bebida quente feita a partir de uma mistura de centeio e chicória torrados. Por volta das 13 horas, era-lhes servida uma refeição como almoço. Nesta havia geralmente ervilha, nabo amarelo, repolho e batata, cozida em água e sal. As vezes havia soro de leite. Carne vez ou outra, mas havia muito toucinho. A noite batata de novo. Nem sempre se usavam pratos ou talheres, a batata era espalhada sobre a mesa. Uma porção de arenque às vezes era espalhada da mesma forma. Cada um descascava sua batata e cortava seu peixe com canivetes.

    Para completar esse quadro de extremas dificuldades para uma sobrevivência digna que tinham os servos pomeranos do império prussiano, nos acrescenta o autor que para supervisionar o trabalho no latifúndio, eram contratados inspetores e capatazes. O inspetor fazia o elo entre o capataz e o latifúndio. O capataz era o executor das ordens que vinham de cima, a ele era permitido espancar empregados. Até o século XIX, existia o direito do açoitamento, e todos o utilizavam. Os nobres açoitavam seus servos, o marido podia bater na esposa e filhos, o artesão batia no aprendiz, o professor nos alunos. Só não apanhavam aqueles que estavam na escala mais alta da sociedade.

    Ou seja, o minucioso trabalho de Helmar Rölke – que cito apenas uma fracção diminuta, mas os que o lerem poderão se informar de todo o conjunto – nos faz entender a razão pela qual quando as condições europeias permitiram grande número de germânicos, entre eles os habitantes da distante província da Pomerânia, partiram de suas terras. Os primeiros movimentos foram dentro da própria Europa – assim como aconteceu com os que viviam no norte da Itália que também vieram para o Brasil depois – só mais tarde é que optaram por viagens mais longes, pela travessia temerária do Atlântico.

    Capa_Raízes-1
    Detalhe da capa do livro  de Helmar Reinhard Rölke. Leitura fundamental para a compreensão de elementos que integram a formação da identidade dos capixabas de origem alemã e do Espírito Santo.

    As condições da vivência europeia eram terríveis. Estes pobres camponeses nada tinham a esperar dos recantos onde viviam. Pelo relato parece que lhes faltava sobretudo esperança. A presença tecnológica das locomotivas movidas a vapor – o avanço tecnológico está na raiz das condições que permitiram a imigração em massa – produziu os deslocamentos dentro do próprio continente. A mudança alimentava a expectativa de melhores dias. Depois a mesma onda tecnológica também produziu embarcações mais potentes para atravessar os mares. Assim a busca de melhores dias de vida permitiu a vinda de centenas de milhares de europeus para as terras do novo mundo.

    O Espírito Santo, por suas condições específicas pode receber parte significativa destes imigrantes. Éramos na metade do século XIX um grande vazio populacional e de atividades econômicas, como muito bem está descrito em nossa historiografia e no próprio trabalho que analiso. A solução das colônias foi o que deu materialidade à vinda deste imenso contingente de deserdados Os camponeses europeus vieram para o Espírito Santo para construírem aqui seu paraíso campesino. Foi a imigração camponesa que construiu a sociedade capixaba de hoje.

    Temos aqui a primeira grande contribuição do livro na compreensão de nossa identidade: seu caráter absolutamente camponês. Por outras razões que não nos cabe analisar aqui, continuamos camponeses de forma tardia até pelo menos a metade do século XX. Mas, isto é uma outra história.

    Voltemos às raízes da imigração alemã. Lembra o autor que se calcula que tenham entrado no Brasil a partir de 1859 cerca de 30.000 pomeranos. Deste número cerca de 15% estabeleceram-se no Espírito Santo.

    pomeranos03
    Foto: Ervin Kerckhoff

    Os alemães, camponeses pobres, optaram por vir para o Brasil em busca de novos horizontes. No caso específico, do Espírito Santo. Em busca de um pedaço de terra para cultivar, já que o império brasileiro tinha uma política oficial de colônias de terras que eram entregues aos imigrantes para o cultivo. Trata-se portanto de uma imigração de pessoas do campo para continuar sua saga no campo. Tudo o que buscavam era um pedaço de terra e liberdade para cultivá-la. Fugiam do regime bárbaro a que estavam submetidos e imaginavam poder melhorar suas vidas cultivando sua terra. Estavam dispostos a continuar no regime de super trabalho a que estavam submetidos. Mas tinham  a esperança do progresso. Por isso enfrentavam viagens horrorosas onde muitas perdiam mesmo a vida, enfrentavam um clima totalmente diverso, mas buscavam seu pedaço de chão na distante América e no caso em estudo neste pedacinho da América chamado Espírito Santo.  As dificuldades iniciais não foram simples, a ganância dos agentes de imigração, a desonestidade dos burocratas brasileiros e a precariedade da estrutura na chegada eram exemplos. O governo não cumpria o prometido. As colônias demoravam a ser demarcadas.

    Nos primeiros tempos a improvisação era total. Mas havia a terra, mas havia a liberdade de sonhar.

    LIVRODIVULGACAObaixa_ Kerckhoff_01
    Fazenda pomerana: forte ligação com a ascensão do café. Foto: Ervin Kerckhoff

    Aqui o autor chama a atenção para um elemento definitivo no processo: a promessa do café. De tudo o que podiam cultivar somente um produto podia chegar ao mercado e produzir renda monetária, proporcionar acumulação e o progresso das famílias que tanto buscavam. É inegável que a expansão do café foi a grande responsável pela ocupação do território capixaba, tirando a província da letargia em que se encontrava. Para a expansão do café tornava-se fundamental trabalhadores dispostos a enfrentar o desbravamento do interior da província. Ninguém melhor do que os europeus para fazê-lo. Eles estavam dispostos a todo tipo de sacrifício para serem donos de um pedaço de terra e conheciam as condições severas de produzir em terreno montanhoso e inóspito. Fugiam de um mundo que além das grandes dificuldades não portava o futuro e tinha uma desigualdade de corte ainda feudal que era brutal.

    Deste encontro nasce uma vertente importante de compreensão de nossa formação capixaba. Da presença germânica, da importância pomerana neste contexto e da cultura do café. Cultura compreendida na extensão de seu termo. O café como produto e a imigração como portadora da mão de obra estão na base da cultura do café no Espírito Santo. Evidentemente que o café foi produzido com o trabalho escravo em grandes propriedades no sul do estado. Este fato tem enorme relevância e é um dos elementos que também formam nossa identidade regional. Mas o olhar sobre a presença campesina voltada para o café fazem uma enorme diferença em nosso estado em relação às demais unidades federativas brasileiras. Marca nossa identidade.

    Todos os traços culturais invadem essa cena. A religiosidade predominantemente luterana com a forte presença dos pastores vinculados à vida comunitária. A dificuldade ao lidar com a nova língua, a distância do mundo e dos valores lusitanos ou que os tornou isolados, tudo isto é marca identitária. Ou seja, lendo o livro do pastor luterano e pesquisador minucioso que é Helmar Rolke, entendemos um pouco melhor o que nos faz capixabas. O que nos faz diferentes. O que torna a diversidade em nosso estado algo enigmático e encantador.

    Voltando à ideia de que o livro é uma travessia que conduziu nosso breve texto e concluindo, rendemos nossa homenagem à força e ao vigor das análises aqui empreendidas. Dignas mesmo de um grande livro. Consagração de um grande autor.

    LIVRODIVULGACAObaixa_ Schultz_02
    Raízes da Imigração Alemã: trabalho definitivo na elucidação da vida de milhares de imigrantes e seus descedentes  no Espírito Santo.
  • NEGROS, EUROPEUS E INDÍGENAS.

    Texto de apresentação dos três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros e indígena

    Um assunto sempre polêmico é discutir os processos de identidade coletiva de uma sociedade determinada, qualquer que seja ela. No Brasil as discussões sobre identidade regional são sempre mescladas com uma certa competição interna entre as regiões e seus estilos de vida. Não quero contribuir para essa polêmica, e não me arriscarei a tentar traçar um perfil da identidade capixaba, até porque não tenho elementos para tal tarefa no momento.

    Meu objetivo é muito mais modesto. Quero apenas trazer para a reflexão dos leitores, alguns elementos que construíram a vida social no Espírito Santo como a vivemos hoje, sobretudo a partir da contribuição dos vários grupos étnicos que aqui chegaram no nosso processo social-histórico. O texto que abre a série de artigos foi prefácio do livro Raízes da Imigração Alemã, de Helmar Rölke. Trabalho de profunda relevância na compreensão dos imigrantes, que junto aos italianos, foram os principais na povoação do Estado.

    Os outros dois também serviram de fato como prefácio a obras publicadas na coleção Canãa do Arquivo Público do Espírito Santo, vinculado a Secretaria de Estado da Cultura, do qual sou titular há pouco mais de três anos. Juntos eles refletem elementos importantes da nossa formação.

    Alias, quero mesmo é refletir sobre a contribuição das diferentes etnias e suas culturas, que vem compondo essa espécie de mosaico que nos faz capixabas. Que nos faz diferentes de outras regiões. Os indígenas, – os povos originários – os negros que aqui chegaram na condição de escravizados e os europeus, se amalgamaram de uma forma bem própria. Mesmo que mantendo hierarquizações sociais perversas, fundiram-se em sucessivas uniões.

    Quanto aos europeus, a presença deles era majoritariamente do colonizador português nos primeiros três séculos de exploração. Foi somente no século XIX que recebemos forte imigração vinda sobretudo do norte da Itália, em região vinculada ao mundo austríaco, e também do universo social germânico. Os europeus que aqui chegaram, na verdade vieram de um universo na fronteira entre o mundo alemão e o mundo italiano para juntarem-se no território a indígenas e negros, além dos descendentes dos primeiros colonizadores portugueses. Outras nacionalidades como libaneses, austríacos, suíços, por exemplo, tanto aqui chegaram no século XIX. Mas foram italianos, alemães e pomeranos que deram o tom do processo.

    Disponibilizarei a sequência de artigos no blog na ordem em que os escrevi, e na mesma ordem em que li os textos que os inspirou. Obviamente que não existe nada na sequência além da ordem da leitura e a escrita. Cada um dos povos deu sua importante contribuição na formação do conjunto capixaba.

    O primeiro texto, que reflete sobre a Imigração Germânica a partir da obra de Helmar Rölker, levanta alguns dos elementos que tornaram possível a construção, ou do ponto de vista dos que imigraram, da manutenção de uma sociedade de camponeses. Fenômeno que certamente a ajuda a explicar porque os imigrantes mantiveram-se tão agarrados ao mundo rural no Espírito Santo, sobretudo ao mundo da cultura do café.

    Durante um século vivemos esse ideal camponês de forma quase perfeita. E, ainda hoje, somos um estado muito vinculado a dimensão agrícola. Seguramente parte integrante de nossa identidade social. Mas, apenas um exemplo de como é possível tecer, a partir da herança história, a complexa teia de elementos que fazem os capixabas e o Espírito Santo serem como são.

    livros
    Os três livros que, como secretário de Cultura, tive o prazer e oportunidade de escrever os prefácios.

     

     

  • Diversidade no palácio

    João Gualberto

    Os espaços culturais no Século XXI – como os museus, por exemplo – ampliaram seus horizontes e democratizaram suas ações, abrindo-se de forma radical para a inclusão tanto na produção daquilo que será exposto quanto em seu acesso. Não foi por outro motivo que o governo estadual desde o final da gestão anterior do governador Paulo Hartung, abriu de forma republicana o Palácio Anchieta como espaço de vivência da cultura.

    Ele abriga neste momento – e até o dia 06 de novembro – a exposição Constelações do importante artista capixaba Hilal Sami Hilal. Trata-se da terceira exposição no atual governo Paulo Hartung, trazendo ao público as obras de 3 pesquisadores e artistas capixabas com diferentes performances e atuações. Mas elas foram todas escolhidas dentro de mesmo critério, decorrente da proposta construída para o espaço.

    Vejamos, a primeira, de caráter científico, Corpo Humano (veja um pouco do conteúdo no vídeo abaixo): da Célula ao Homem, foi realizada entre 09 de junho e 13 de setembro do ano passado. Ela contou com 280 peças do Museu de Ciências da Vida da Universidade Federal do Espírito Santo e teve a curadoria do Professor Doutor Athelson Stefanon Bittencourt, um grande pesquisador capixaba de prestígio internacional. No período em que ficou exposta, foi visitada por mais de 42 mil pessoas.

    Depois veio a exposição histórica inédita Postais do Espírito Santo: Acervo do Monsenhor Jamil Abib, construída ou partir de um longo projeto de pesquisa do Professor Paulo de Bastos, reconhecido estudioso capixaba da arte fotográfica. Foram mais de 300 exemplares – produzidos entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, período de seu apogeu artístico – com registros dos aspectos dos costumes, da história e da arquitetura local. A exposição foi produto de forte elaboração intelectual e artística.. Visitada por quase 20 mil pessoas, teve na chamada visitação espontânea mais de 15 mil pessoas, atestando seu sucesso.

    Agora os capixabas podem apreciar Hilal no Palácio Anchieta, importante artista capixaba que trabalha o espaço como uma instalação, ou seja, projeto que dialoga com a arquitetura interior. É a primeira vez que o Palácio se transforma desta maneira. Isso abre uma nova interpretação da utilização do lugar, mostrando uma multiplicidade de usos e narrativas. Como registrou o próprio Hilal em artigo no Caderno Pensar do dia 30 de julho passado, para explorar ainda mais a poética da obra ele convidou para a curadoria Neusa Mendes que, em conjunto com a psicanalista Ruth Bastos e o físico Laércio Ferracioli, aprofundou a visão sobre o trabalho através da análise sob o ponto de vista da interpretação crítica, da psicanálise e da ciência.

    Screen Shot 2016-09-01 at 2.54.40 PM
    Detalhe da exposição Constelações

    Sete escolas da rede estadual foram convidadas para participar do projeto Constelações escrevendo seus próprios nomes, dos seus entes queridos e dos seus heróis. Hilal teve como meta – segundo seu depoimento no mesmo artigo – ter aproximadamente 10 mil nomes, 10 mil estrelas. 2 mil e 500 alunos, professores e assistentes ajudaram na elaboração da obra. Esse seu caráter enche de significado nosso espaço. É disso que se trata.

    Finalizando, a proposta do Espaço Cultural Palácio Anchieta é permitir que seus visitantes conheçam os diferentes aspectos que a criação visual abrange. Para os jovens, esses são os tempos das novas interpretações e atuações no universo existencial e também propor uma reflexão sobre todas essas possibilidades. Arte, ciência e história, este encontro maravilhoso que anima hoje o mundo dos museus e espaços criativos.

     

    Fotos e vídeo: Arquivo SECULT

  • Economia artisticamente criativa

     

    João Gualberto

    Xavier Greffe, estudioso francês, teve um de seus livros recentemente lançados no Brasil pelo Observatório Itaú Cultural/Iluminuras. Trata-se da obra Economia Artisticamente Criativa. Nele, Greffe afirma: hoje existe uma forte ligação entre as artes e a economia. O que tem se chamado de economia criativa, mostrando que as artes tem um papel importante no mundo econômico contemporâneo. Na verdade, elas não constituem mais um setor restrito para os quais se dirigem olhares gentis. Elas tem para o autor uma dimensão transversal que fertiliza a criatividade social e produtiva (p.183).

    São estas compreensões que nos animaram para criar um programa denominada Economia Criativa no âmbito das políticas públicas do governo estadual. Pretendemos construir uma convergência entre cultura e desenvolvimento. Temos convicção de que a cultura é alavanca importante para o desenvolvimento econômico e social de um país ou de uma região. Alavanca que ajuda a repensar modelos de crescimento com novas fontes de energia e uma nova postura do ser humano frente ao desafio da promoção do desenvolvimento sustentável.

    Está claro o Espírito Santo tem um potencial cultural muito forte. São manifestações da chamada cultura tradicional, ou da gastronomia, artesanato, artes visuais, cênicas ou audiovisuais por exemplo. Existem hoje cinco sítios históricos , São Mateus, Itapina, Santa Leopoldina, Muqui e São Pedro de Itabapoana. Temos que trabalhar estes lugares privilegiados de nosso patrimônio arquitetônico e cultural como elementos do nosso desenvolvimento, sobretudo através do turismo que os valorize e tenha a capacidade de levar a eles novos negócios que signifiquem emprego e renda.

    livro
    Economia Artisticamente Criativa, de Xavier Greffe

    Quando assumimos a secretaria da cultura, havia um projeto governamental praticamente desativado no campo da economia criativa, e que envolvia a secretaria. Foram feitas inúmeras rodadas de conversas e negociações com as várias secretarias envolvidas, como por exemplo: turismo, desenvolvimento econômico ou ciência e tecnologia. Além disto, estiveram envolvidos nestas movimentações iniciais o Sebrae, a Findes e o Bandes. Enfim, iniciamos um esforço técnico e político de dar nova dinâmica a estas atividades.

    Temos nossas razões. Para ficar em um exemplo importante, nossa indústria – como as que existem nos arranjos produtivos de Linhares com indústria moveleira ou Colatina com a moda – são ricas em criatividade no campo da produção. Nossa intenção é potencializar esta capacidade criativa, dando maior competitividade ao produto capixaba. O Banco de Desenvolvimento – BANDES – na gestão de seu presidente Luiz Paulo Veloso Lucas, criou várias linhas de financiamento à economia criativa que dão materialidade aos nossos planos neste momento.

    Mas estamos muito focados em formação no campo da criatividade e das profissões que a exijam, utilizando o fazer artístico no campo econômico, criando entre nós uma verdade noção do que seja Economia Criativa. Parte desta formação estará localizada em territórios tidos como de alta vulnerabilidade e onde os jovens tem poucas alternativas de trabalho. Trata-se de formar pessoas para profissões mais atraentes e que digam respeito ao mundo da juventude de hoje. Ao mundo digital, já estamos iniciando um trabalho em Vila Nova de Colares no município da Serra.

    Outro elemento importante que o projeto do governo do estado não poderá ignorar é a tecnologia. O mundo em que vivemos e aqueles que entram hoje no mercado de trabalho, de qualquer um dos setores sociais, não querem somente as profissões tradicionais. Por isto temos que ter um foco bem específico na base tecnológica no elemento central da Economia Criativa

    Além destes fatores todos já listados, a economia criativa também contribui significativamente para o desenvolvimento social. Seu potencial de gerar  autoestima, qualidade de vida, por meio de atividades prazerosas e representativas das características de cada localidade estimula o crescimento inclusivo e sustentável. Por isto a elegemos como política central de nosso mandato.

  • O chupa-cabras e o capitalismo cultural

     João Gualberto

    Rodrigo Aragão era desconhecido do grande público brasileiro. Mas, seu primeiro curta-metragem, Chupa-cabras, de 2004, foi um hit no Youtube.

    Pouco mais de dez anos depois, sua trilogia de horror feita sem incentivos fiscais, com pouca verba e atores desconhecidos já percorreu festivais em várias partes do mundo e foi vendida para países como EUA, Holanda, Bélgica, Alemanha e Japão.  Só na China, um episódio envolvendo a censura do seu filme “Mar Negro” impulsionou o download de mais de 1 milhão de cópias do filme, rebatizado “Zumbis das terras alagadas”. 

     

    rodrigoaragao_zedocaixao
    Rodrigo Aragão e José Mojica, o Zé do Caixão, durante gravações do filme “O Saci” – Fonte: Midicult.wordpress

    A forma como Aragão, fã do gênero terror desde criança e perito em efeitos visuais, pode expressar sua criatividade para dar vida a suas sanguinolentas e divertidas produções,  é um elemento importante daquilo que tem sido chamado de economia criativa.

    Uma das leituras a serem feitas em torno desta economia é o trabalho dos autores franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, que a incluem no que denominam como a era hipermoderna e do capitalismo cultural.

    No livro A Cultura Mundo- Resposta a uma sociedade desorientada, os dois autores apontam elementos que definem um novo cenário global em que se entrelaçam elementos de várias padrões culturais antes vistos como nacionais. Um movimento que se iniciou com uma espécie de americanização do mundo, até chegar a uma verdadeira Cultura-Mundo.

    Lipovetsky e Serroy afirmam que o que caracteriza a época época hipermoderna não é mais o conjunto das normas sociais herdadas do passado e da tradição – ou seja a cultura no sentido antropológico – nem mesmo o que eles chamam do “pequeno mundo” das artes e das letras. Na hipermodernidade, a cultura se tornou um setor econômico em plena expansão, base da sociedade e reflexo das novas tecnologias, da economia globalizada, do individualismo e do consumismo.

    Nesse novo sistema de valores, a produção cultural é um segmento de bens mercantis e simbólicos que vão dos livros à moda, das inovações tecnológicas ao design, da música à gastronomia. A economia e seu poder multiplicado é que se impõem como a instância principal da produção cultural. E as indústrias culturais conseguiram criar uma lógica que não tem somente a ver com as transgressões vanguardistas.

    12761_gg
    LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean. A cultura-mundo, respostas a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011

    É preciso relativizar as opiniões dos autores e também valorizar inúmeros povos e comunidades que ainda justificam seu fazer cultural e todas as ações da vida cotidiana a partir de outras ordens. Um pajé, por exemplo, terá outros elementos como justificativa de seu fazer cultural. Por outro lado, é de grande importância destacar que esse olhar não deixa de ser revolucionário e inédito.

    Os autores nos lembram que, pela primeira vez, há uma cultura produzida não mais para a elite social e intelectual , mas para todo mundo, sem fronteiras de país e mesmo de classes. Diferentemente da civilização criada pelo livro e pelas bibliotecas, as indústrias culturais modernas dirigem-se de imediato à maioria, abrem uma página inteiramente nova da difusão cultural.

    Os resultados são novos desejos de partilha, expressão e participação. O individualismo hipermoderno não é apenas consumista, ele é ao mesmo tempo expressivo, interativo e participativo. Ele está em busca de interação múltipla, o que não impede dos artistas contemporâneos aspirarem de um novo objetivo muito mais bem definido: ganhar dinheiro e ser célebres.

    O que Lipovetsky e Serroy apontam não esgota a dinâmica do fazer cultural contemporâneo em sua grande diversidade. Mas, com certeza, contribuem para entender e construir caminhos em que cada vez mais pessoas tenham acesso ao entretenimento, ao saber e a cultura: seja ela a do chupa-cabras ou do pajé.

     

    Para quem ainda não conhece o trabalho do cineasta, o link do canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCf–7M89BFp_s9C365m5k1w

  • ‘Ideia é unir cultura e desenvolvimento’

    joao metro

    Em entrevista ao Jornal Metro, Secretário de Estado da Cultura, João Gualberto diz que a economia criativa é um dos focos da pasta

    Num Mercado em constante transformação , aquecido pela ebulição de inovações tecnológicas, a Secult (Secretaria de Estado da Cultura) assume um novo desafio: contribuir para o desenvolvimento da economia criativa no Espírito Santo.

    Isso exige ir além das atividades artísticas e chegar até mesmo à produção industrial, que também precisa de criatividade. “Estamos vivendo um capitalismo cultural. Há exemplos importantes no mundo, como a Inglaterra, que passou por intervenção em sua lógica urbana, nos anos 90, ao criar sua indústria criativa. Ou o Peru, que se reinventou com foco no turismo. São países que se requalificaram com incorporação da cultura à agenda econômica”, explica o secretário de Estado da Cultura, João Gualberto.

    Ele afirma que, desde as primeiras conversas com o governador Paulo Hartung, ficou estabelecido que a economia criativa seria um foco importante da pasta. Nesta entrevista, o secretário fala sobre as ações nessa área, o lançamento do projeto ES Criativo e os investimentos previstos para esse setor pelo governo.

    Como será o trabalho da Secretaria de Cultura para desenvolver a economia criativa do Espírito Santo?

    Nosso foco na economia criativa é fazer uma convergência entre cultura e desenvolvimento. O Espírito Santo tem um potencial cultural muito forte, com suas manifestações folclóricas, sua gastronomia, seu artesanato e sítios históricos. Temos de trabalhar esses patrimônios como elementos do nosso desenvolvimento, através do turismo, da qualificação de equipamentos culturais e até da nossa indústria, como os polos moveleiro de Linhares e de confecções em Colatina, que também necessitam da criatividade no campo da produção.

    joao2
    Fotos: Gabriel Lordêllo • Mosaico Imagem

     

     

    Isso envolve a geração de emprego e renda na área da economia criativa?

    Estamos focados na formação. Por isso, nos associamos ao programa de Ocupação Social do governo do Estado para desenvolvermos nossos projetos em bairros de grande vulnerabilidade. Começaremos em breve essas ações nos bairros Vila Nova de Colares, na Serra; Santa Rita, em Vila Velha; e Nova Rosa da Penha, em Cariacica. Queremos formar um contingente de jovens, basicamente de 15 a 24 anos, habilitados nos fazeres culturais. Para serem capazes de ganhar a vida como músicos, designers ou no campo audiovisual. Vamos juntar as duas coisas: o fomento às atividades artísticas com a inclusão das pessoas na economia criativa.

    Essa política de formação também abrange novas habilidades exigidas pelo mercado?

    Há uma coisa importante que a cultura não pode ignorar, que é a tecnologia. Os jovens da periferia não querem somente as profissões tradicionais. Nossa formação tem de passar também por uma base tecnológica. Estamos nos aproximando da Secretaria da Educação para investirmos nisso. Existe em Vila Velha a Escola de Pós-Médio Vasco Coutinho, que pode ser utilizada como um local de formação no campo da música, do audiovisual, do design, entre outros.

    Ao focar na formação, como a Secult vai se comportar em relação às políticas de patrocínios e de editais?

    Estamos saindo da política de patrocínios e dando prioridade à política de editais, com base na meritocracia, que é algo comum tanto por parte do Ministério da Cultura, quanto das secretarias estaduais e municipais. Desde o dia 1º de janeiro de 2015, o governo do Estado proibiu essa política de patrocínios. Estamos tentando deslocar o foco dos eventos para as ações estruturantes. Passamos a fomentar atividades de formação presentes nos eventos, como cursos e oficinas. É preciso lembrar que existem também os editais de empresas privadas, como Petrobras, Itaú, Banco do Brasil, entre outros, além dos federais, como da Ancine e do BNDES. Queremos fazer a qualificação para que os nossos artistas possam disputar em condições mais competitivas esses editais. Mesmo com atraso no processo, tivemos neste ano de crise um edital significativo. Os resultados estão sendo divulgados com uma nova geografia de distribuição. Porque é intuito do governo formar novos talentos. A ideia é democratizar.

    Como está o processo de montagem do projeto ES Criativo, que visa a fomentar essa nova economia cultural?

    Quando assumimos, havia um projeto desativado de economia criativa. Tive conversas com os secretários de Turismo e de Desenvolvimento, o Sebrae, a Findes e a prefeitura de Vitória. Isso resultou na construção do programa ES Criativo. Contratamos uma consultora, Cláudia Leitão, que foi secretária nacional de Economia Criativa do Ministério da Cultura. Ela está nos assessorando na montagem desse programa, que faz parte do planejamento estratégico do governo estadual. Desde março, já foram realizados workshops e palestras para debater o assunto. Agora, estamos em fase de discussão com a sociedade. A economia criativa é um campo muito extenso. Temos de focar em quais áreas faremos as nossas ações de formação e apoio. Realizamos uma pesquisa on- -line, via rede social, listando as áreas para que as pessoas opinassem sobre quais deveriam ser contempladas no ES Criativo. Nossa intenção é que esse projeto seja instalado em 2016.

    De que forma o Sebrae e a Findes poderão ajudar o ES Criativo?

    Esperamos que nos ajudem na ampliação da formação dos novos talentos para o mercado de trabalho. Não necessariamente dando um emprego. Mas podem ser empreendedores como produtores, artesãos, músicos… Há por parte da juventude um interesse muito grande nas startups. O caminho é ajudar a formar empresas que se relacionem com o mundo dos negócios. É bom destacar que não estamos focados só nos jovens. A oportunidade será aberta a quem quiser.

    Em relação aos espaços culturais, quais os investimentos da Secult?

    Vamos requalificar os nossos espaços culturais. Faremos uma reforma na Biblioteca Pública, para melhorar o atendimento, e realizaremos intervenção na Biblioteca do Transcol para aumentar a quantidade de obras à disposição. O MAES receberá melhorias na parte técnica e na conservação do acervo. A Galeria Homero Massena e o Museu do Colono, em Santa Leopoldina, passarão por obras. E vamos buscar apoio para a restauração do Theatro Carlos Gomes.

    A entrega do Cais das Artes sofreu novo adiamento. Isso atrapalha os planos da Secult?

    As obras do governo estão sendo feitas com muita responsabilidade. Sabemos que os processos licitatórios são lentos. Como foi divulgado pela Setop (Secretaria de Transportes e Obras Públicas), o recomeço das obras será apenas em julho de 2016, com conclusão em julho de 2018. O que podemos fazer, enquanto isso, é focar na formação dos nossos artistas e técnicos e proporcionar uma ambiência cultural para que possam usufruir e ter acesso a este novo equipamento que será o Cais das Artes.

    FIM

    O caderno de Economia Criativa do Jornal Metro da última sexta-feira, 27 de novembro de 15, mostrou um pouco do Espírito Santo Criativo. Projeto, da Secretaria de Estado da Cultura, visa à economia com foco em boas ideias. Clique na imagem para ter acesso. 

     

    Clique para acessar o MIni%20Vito%C3%ACria%20Cultura.pdf

    MIni Vitoìria Cultura-1

     

     

  • A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO

    Livro do escritor peruano Vargas Llosa discute como a banalização generalizada e a busca da autopromoção estão produzindo uma grande vítima: a política.

    João Gualberto

    Estamos construindo uma obsessão pelo entretenimento em um universo de frivolidades bancada pela busca permanente da autopromoção. Na minha opinião, nada expressa de forma mais clara a civilização do espetáculo, a busca da espetacularização do cotidiano do que a mídia das redes sociais. No Facebook, qualquer festa de família vira um espetáculo. Dizem até que essa rede social é uma espécie de festa de Natal em família – com suas delicias e chaturas – que dura o ano todo.

    O programa Big Brother, exibido há 15 anos no Brasil, é outro bom exemplo da banalidade espetacularizada. São pessoas frívolas realizando atividades ainda mais frívolas e sendo seguidas por uma multidão igualmente desprovida de sentido crítico por semanas e semanas. Uma expressão acabada da civilização do espetáculo.

    bial12
    Divulgação/TV Globo

    O assunto, que faz parte da vida de quase todos nós, também chamou a atenção do grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura em 2010.

    Vargas Llosa reuniu alguns ensaios, publicados sobretudo no jornal espanhol El País, e aprofundou os assuntos com outros textos e comentários em um delicioso livro chamado A Civilização do Espetáculo: uma radiografia de nosso tempo e de nossa cultura. Na verdade um título tomado de uma obra de Guy Debord: La Société du Spetacle de 1967.

    O livro A Civilização do Espetáculo: uma radiografia de nosso tempo e de nossa cultura.
    O livro A Civilização do Espetáculo: uma radiografia de nosso tempo e de nossa cultura.

    A abordagem do escritor ao nosso tempo se dá sobretudo pelo deslocamento da cultura somente para a indústria da diversão, promovida pela força da publicidade. Para ele, o desaparecimento da crítica deixou um vazio que foi ocupado pela publicidade, que passou a ser parte integrante da vida cultural. Este vazio foi grandemente provocado pela perda de interesse da sociedade pelos intelectuais, uma consequência do ínfimo valor que o pensamento tem na civilização de espetáculo.

    Politizando o tema, a banalização generalizada que a civilização do espetáculo produz, uma grande vítima: a política. Talvez a maior. Espetacularizada, ela torna-se escrava da autopromoção, da busca do marketing vazio pelos grandes atores sociais. Os cidadãos trocam a busca do conteúdo pelas fofocas e frivolidades dos grandes políticos.

    O conjunto da sociedade, inclusive suas grandes instâncias de poder, vive assim um momento de estrelismos pessoais, sem uma grande liga que somente a cultura pode dar.

    É evidente que é uma posição que Vargas Llosa toma e defende. Não todos precisam estar de acordo com ela, mas é importante levá-la em conta para tentarmos retomar o núcleo mais denso de uma civilização que pode se perder ao ficar banal de demais, esvaziada de uma vez de valores que solidificam a vida social. A vida política.

    Neste vídeo, desenvolvido dentro do excelente projeto Fronteiras do Pensamento, o escritor peruano aborda o conceito de “cultura” em conferência homônima à obra, “A civilização do espetáculo”.

  • CARNAVAL, CULTURA  E GESTÃO CULTURAL

    No Brasil, o governo, as empresas e a sociedade tem muito o que aprender com o Carnaval.

    João Gualberto

    Aceitei com muita honra o convite que me foi feito pelo governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, para assumir a Secretaria da Cultura neste seu novo governo. O desafio me encanta. Na verdade creio que ele permite exercitar um olhar que vinha desenvolvendo ao longo de minhas últimas atividades profissionais como consultor e diretor da Futura, mas sobretudo em minhas atividades acadêmicas.

    Um dos fundamentos deste olhar é que não creio que há obrigatoriamente divergência entre os conceitos de cultura e desenvolvimento. Acho que eles podem conviver de forma harmônica e criar certo nível de convergência. Um bom exemplo disto é o conceito de Economia Criativa, onde a dimensão cultural também melhora financeiramente a vida de enorme número de pessoas.

    Mas, não desejo neste artigo discutir o conceito de Economia Criativa. Quero antes dar um exemplo muito localizado de como um evento nascido no universo da cultura brasileira, transformou-se em lugar de gestão e exemplo para outras atividades do mesmo universo: o carnaval.

    Todos sabemos que a sociedade brasileira é muito desorganizada. Temos prova disto todos os dias em nossas vidas. O Estado funciona mal e presta serviços normalmente muito ruins à população. Vivemos às voltas com atrasos nos horários, calendários e cronogramas que raramente são cumpridos. As empresas tem dificuldade em cumprir seus compromissos com os clientes, e, por sua vez, também tem constantemente problemas de cumprimento de prazo por parte de seus fornecedores.

    Entretanto, em meio a este quadro nos deparamos com a quase perfeita organização das escolas de samba no Carnaval. Esta aparente contradição me leva a pensar por que razão existe esta discrepância. Porque os membros destas agremiações conseguem se organizar de forma a funcionarem bem, e, estes mesmos personagens, não conseguem a mesma organização quando se trata de outras instâncias da vida social.

    Carnaval, por Carybé
    Carnaval, por Carybé

    Não pretendo aqui analisar com mais detalhes a lógica interna destas festas – o que, aliás, já foi feito de forma magistral pelo antropólogo Roberto da Matta em seu livro Carnavais, Malandros e Heróis –, mas apenas chamar a atenção para um fato que me parece extremamente importante em um dos eventos: a organização deste desfile de escolas de samba, que tem sua maior expressão no Rio de Janeiro mas também movimenta milhares de pessoas todos os anos em nosso Estado.

    Evidentemente que a resposta a esta questão é muito complexa, e não esgotaria neste espaço. Mas, acredito que uma pista pode ser a importância relativa que o Carnaval tem na vida de cada um dos que estão envolvidos em sua organização. Ou seja,o desfile é uma obra coletiva, que conta com a participação de milhares de membros, e que precisa de uma ação integrada sem a qual ele é inviável. O autoritarismo jamais daria conta disso tudo. O sucesso desta organização complexa talvez esteja na forma democrática com que ela é feita, e pela importância social e individual que ela tem para cada um dos participantes.

    Será que este espírito democrático pode ser conseguido em outras instâncias da vida no Brasil?

    Será que somos capazes de nos organizar somente em episódios rápidos e sem maiores compromissos com continuidade, sendo incapazes de nos organizar para atividades de longo prazo? Não tenho resposta clara para estas questões, mas sei que outras sociedades conseguiram articular suas tradições com a lógica da globallização. E nós, seremos eternamente capazes de grandes efeitos de curta duração e incapazes de construir uma nação com base no esforço coletivo?

  • João Gualberto O livro escrito por Jorge Caldeira, a História do Brasil com Empreendedores, editada pela Mameluco em 2009, tenta explicar o desenvolvimento do Brasil Colonial levando em conta a história de nossas atividades empresariais. É obra fundamental para aqueles que pretendem avançar na compreensão de nossa trajetória social-histórica, e tem um caráter inovador em relação à nossa historiografia mais tradicional. Capa_Empreendedores1 Na verdade, trata-se de elucidar o papel do empreendedor em nosso processo econômico e social. O autor reúne dados e reflexões para desconstruir a ideia de que fomos apenas uma sociedade gerada pelo Estado ou um país que viveu somente do produto das exportações para o mercado internacional, sem dinâmica empreendedora própria, portanto. O mais importante para Caldeira é mostrar que – ao contrário do que toda uma bibliografia tradicional no Brasil tenta explicar – tivemos sim um forte mercado interno durante a colônia e que este mercado foi sustentado por uma multidão de pequenos, médios e grandes empreendedores. A partir do que o autor nos coloca, podemos pensar como a cultura empreendedora emerge em nosso imaginário social e como o capitalismo se insere em nosso processo social-histórico que continha elementos europeus, a escravidão africana e os indígenas. É disto que trata a obra. Para atingir o objetivo a que se propõe, o autor analisa de forma muito crítica a obra do grande pensador brasileiro da primeira metade do século XX Caio Prado Júnior. isto porque ele foi para Caldeira o grande artífice da elaboração de uma interpretação do Brasil que não enxerga nem o mercado interno e nem o papel de seus grandes articuladores, os empreendedores, os empresários e como eles criaram uma espécie de amarração de toda uma teia de significados que deram vida ao nosso mercado interno emergente. O que Caldeira mostra com veemência argumentativa e muitos dados históricos é que o Brasil que Caio Prado e outros autores importantes como Oliveira Vianna descreveram é apenas uma parte da história. A parte que permitiu a socialização – sobretudo no pensamento marxista brasileiro – de que fomos economicamente somente subordinados à lógica da colonização imposta pela Corôa Portuguesa. A outra parte da história é a deste Brasil que ficou em pé, que absorveu entre seus modos a dinâmica social e econômica dos habitantes indígenas e que forjou o imaginário do empreendedor como instituição imaginária na sociedade brasileira. Disto também se ocupa o livro, e de forma brilhante. As nações indígenas tinham sua estrutura econômica, sua política de trocas. Como era comum nestes universos, a estrutura econômica não tinha a autonomia que alcançou no capitalismo moderno. Estava antes toda imbricada em toda a estrutura social. As famílias estavam todas imersas neste imaginário. Assim, quando os colonos em seu intuito de enriquecer começaram a relacionar-se com as nações indígenas, promoveram casamentos que viabilizassem as transações desejadas. O Brasil assim tupinizou suas estruturas para poder sobreviver e transacionar mercadorias. Um capitalismo muito próprio e com grande força empreendedora. Mas Caldeira amplia sua crítica ao articular ar as formulações de Caio Prado às de um outro grande autor: Oliveira Vianna. Embora tenham expresso pensamentos distantes ideologicamente, pelo direitismo assumido de Vianna e o marxismo de Caio Prado, ao serem cotejados vê-se claramente a origem de uma certa leitura do Brasil que mutila muitos movimentos internos e elimina totalmente o papel social do empreendedor. Isto ele demonstra quando, por exemplo, quando diz que estas análises deixaram de fora o impacto da descoberta do ouro em terras brasileiras. É óbvio que a metal preciosos destinava-se à exportação, mas sua descoberta provocou enormes transformação em nosso mercado interno.

    O autor Jorge Caldeira. Foto: jornal Zero Hora
    O autor Jorge Caldeira. Foto: jornal Zero Hora

    Na verdade, ao utilizar de forma excessiva o conceito de latifundiário e de todo o universo que isto implicou – sobretudo como explicação das causas do subdesenvolvimento brasileiro como se dizia na época – foi que nossa historiografia matou o papel do empreendedor dos tempos coloniais. Além disto, retirou-lhe os aspectos positivos relativos à construção de um certo capitalismo com marcas próprias no Brasil, e reduziu-o a um personagem: o coronel. Pior do que isto, deu ao coronel uma gama de marcas negativas no campo da política. Concentrou de forma exagerada e equivocada seu olhar na violência e no controle social das massas, esquecendo sua extensa contribuição à formação de nossa economia e da nossa sociedade. Tirou-lhe, portanto, a dimensão empreendedora.

    Apesar das pretensões aristocráticas, o típico senhor de engenho era muito mais um empreendedor que qualquer outra coisa, e investia em atividades especulativas como o comércio de escravos, a coleta de impostos e a abertura de novas terras agrícolas.

    Em resumo, trata-se de toda uma argumentação muito rica e interessante e leitura muito oportuna para aqueles que querem entender nossa trajetória histórica e sobretudo não permitir que tenhamos uma leitura muito preconceituosa sobre nós mesmos.

  • A cultura do exagero


      João Gualberto* 

    Somos um povo exagerado. A maioria das nossas expressões, seja na TV, no futebol ou nas expresões do dia a dia, quando estamos “morrendo de saudade de alguém” revelam isto. E no plano político não somos diferentes. As eleições presidenciais se aproximam e surgem, em todos os lados da disputa, interpretações extremas. É comum ouvir o discurso que associa o governo atual ao comunismo.  Enquanto a oposição tenta sair do debate quase que único da vida pessoal de seu candidato. Mais exemplos de exagero.

    laerte2
    Laerte e o exagero brasileiro

    De fato, todas as crises que acontecem com cada um de nós é vivida com a  pior das crises. Tanto individual como coletivamente, temos a tendência a descrever os fatos como mais duros do que eles são. Ou então, no inverso, com uma rapidez de soluções que só o mais superficial dos mortais poderia levar a sério. Um ensaio sobre as origens da Cultura do Exagero, que marca a sociedade brasileira, extrapola os limites deste pequeno artigo. Mas, julgo oportuno assinalar que essa cultura está presente em cada análise que fazemos, ou em cada medida que tomamos. O resultado prático é que é comum não estarmos nem tão mal, nem tão bem como costumamos dizer. Mais ainda: penso que a verdade é frequentemente encontrada em pontos intermediários, muito menos dolorosos ou prazerosos do que os que nós, brasileiros, costumamos procurar. É preciso ter isto em conta quando lemos os jornais ou quando contabilizamos os sucessos ou insucessos de um Governo, por exemplo. Todo elemento cultural está envolvido em uma grande rede de significações imaginárias sociais. Assim o exagero de nossas reações do dia a dia e nossa forma barroca de viver faz parte do que somos como povo. Faz parte de nosso código cultural. É preciso entendê-lo bem para não nos deixar enganar com muita facilidade e entender o Brasil. Sem exageros.

    Em tempo, não poderíamos esquecer a música de Cazuza. “Adoramos um amor inventado”